Mar e Terra. Relato inacabado

No foro de  Arroutadas, no apartado de relatos curtos, encetei um relato que não rematei. Agora quero o trazer para aquí, perto de mim. Algûm dia, tal vez, terei azos para rematar a história, para que o rio da memória siga a fluir . Algùm dia…

MensaxePublicado: Lun Set 18, 2006 2:43 pm    Asunto: MAR E TERRA Responder citando

MAR E TERRA

Primeira parte

I

Paulo Reis

Era noite fecha quando Paulo Reis cavalgava na sua besta cara Laje, levando a saca do correio. Pola manhã,teria que ir para Serantes com a quadrilha. Ainda quedava muito para rematar a obra, e os canteiros, sem ele, não trabalham como é devido.
Cada noite, a mesma história: Dormir a cavalo da besta, de Fornelos a Laje, para logo, amanhã, reunir à quadrilha e tirar para a obra.
Não teria falta de fazer esto cada dia, durante tantos anos, se não for porque seu pai, vinculeiro do Vao, perdera tudo no jogo dos naipes, deixando ao seu filho sem nada que herdar: Nem terras, nem casa, nem móveis. Tudo o jogou. Até o formoso relógio de parede que sua dona conseguira agachar na tulha, entre o trigo. Quando foram procurar, ja não ficava là.
Agora Paulo tinha ideia de recuperar as terras do lugar, construir umha nova casa e volver a refazer o seu património para os seus quatro filhos, dous varões que travalhavam com ele, de canteiros, e duas mulheres que ajudavam na casa à sua mãe, umha dona muito séria e religiosa, que vinhera do lugar de Nantón.
Era noite de lua cheia, e Paulo, com os primeiros ateitinhos do sono, ia cavilando no que tinha aforrado e nos anos que ainda lhe quedavam durmindo a cavalo da besta para recuperar seu património. Era um homen duro, fraco e teimudo. De poucas palavras. Nunca estive enfermo . O mesmo dia da sua morte, amanhã, andou a arredondar umhas silvas. Aló pola tardinha, deitou-se no leito, algo canso, e ja não passou da noite.
Tinha oitenta e quatro anos, e os seus filhos e filhas ja eram homens e mulheres feitos.

II

No começo eram dous irmãos

Os dous filhos de Paulo Reis, eram canteiros, coma o pai. Diferentes entre sim coma se não for irmãos, mas muito unidos por fortes laços de amor fraternal.
Paulo, o mais velho, era coma o pai: Fraco, miudo e algo trapalheiro. Não sabia bailar nas festas e, para disimular, erguia um pé e baixava o outro. Ainda assim, casou com Carmela, umha dona tranquila e calada, que aturou toda a vida a um homen malhumorado, ronhom e inimigo das modernidades. Os seus nove filhos e filhas, sofriram durante anos a sua retranca maliciosa e azedada, cheia de fel. Era forte e correento, e nunca andou em médicos nem fez caso do que eles dizer. Morreu aos oitenta tres anos, tres meses depois do seu irmão, incapaz de se sobre-pôr á dor da sua perda. Quando conheceu a morte de Carmelo, o irmão, bradou horas e horas coa dor. Eram coma umha moeda de duas caras. Se umha cara faltava, a moeda ja não tinha valor.
Carmelo, o mais novo, tirava-lhe à mãe. Era forte e rexo, de pele branca e muito bom bailador de muinheiras. De novinho mandarom-o à escola a Santa Baia, e alí tomava leições de números, caligrafia e memoriçação de poesias, cum mestre chamado dom José. Mais tarde, o pai quer que siga a estudar para perito, mas as terríveis migranhas que empeçou a padecer, mália ser tratado polos doutores da Corunha, não lhe permitem encetar sua carreira.
Quando se fez mais grande, quer abandonar a pedra polo ferro e o seu irmão,Paulo, construe para ele umha forja de par da casa, e alí começa o seu travalho de ferreiro.
Aló polo ano mil novecentos vintequatro, Carmelo cumprira os vintaseis anos e andava namoriscado dumha moça muito formosa . Elena, a filha de Camilo do Merlo, perito e escribinte do Concelho de Vimbio Verde. Cada dia de festa, colhia a sua besta e tirava monte arriba,cara o val de Vimbio Verde. Ao chegar à vila, os olhos enchianse-lhe de lume ao mirar para Elena, os seus olhos negros, a sua pele suave, o seu cabelo negro recolhido e dividido em dous. O pai de Elena gostava de Paulo, pois era um moço sério, travalhador e instruido, mas a mãe, Bemvinda, algo amiga da canha e o vinho, não simpatiçava com aquele homen tão pouco falador e tão formal. Intuia ela que a sua filha ia levar umha vida muito triste e aborrecida com aquele homen. Ela era Marcuda, umha família de gente faladeira, alegre, e amiga de se relacionar. Não acreditava em que Carmelo do Vao for bom partido para a sua filha mais velha.
Depois de dous anos de relações e namoros, os moços decidem casar. Ele viria para Vimbio Verde, estabeleceria a sua forja na casa dos avós de Elena, A Crega e o Merlo, que moravam no lugar de Casal, numha casa de pedra herdada pola avoa do ter do seu pai, um cura da família dos Golias que, ao morrer, não quixo deixar sua filha ilegítima desamparada.
E velai que chegou o dia. O casamento ia ser à tardinha e Carmelo, pola manhã, foi dar-lhe o decrú ao milho coas suas irmãs. Quando chegou à casa, lavou-se, mudou-se e montou na besta.
Na casa da noiva, no centro da vila, ja estava tudo aviado. As horas iam pasando e o noivo não se apresentava. A sogra berrava coma umha tola, jurando contra o noivo, e reprochando-lhe â filha que tivesse escolhido homen semelhante, mas a noiva ficava tranquila. Estava segura da palavra e do amor do seu namorado.
Por fim, às seis da tarde, chegou ele, montado na besta, e a sogra dicia:
-Ainda ti te perderas polo caminho, condenado!
Elena não diz nada. Só olha os olhos do seu amado e sente umha maré de amor que sobe desde os pés até a caluga, quando olha o que ela sabe, desde sempre.
Carmelo ia muito bem vestido: Camisola branca, de linho, de colo redondo, traje com chaleque castanho e o relôgio de prata no peto, com sua cadeia. Ela ia vestida de negro, com chaqueta de veludo, cabelo recolhido coa raia ao meio e brincos de ouro. Assim aparecem na foto de voda pendurada na parede do corredor. Ela, coa olhada dóce e profunda e ele, com gesto sério e olhada franca e directa, os olhos muito abertos e o cabelo cortadinho, deixando ver umha fronte ampla e umhas orelhas bem feitas e apegadas ao cacho. Se a mulher transmite dozura e calma, ele semelha ter inquedanças, sonhos e energia para os levar a cabo

III

O casal

Elena e Carmelo foram morar à casa de Casal, para ela ser a herdeira dos avôs. A casa era de pedra e tinha duas partes. Na realidade, eram duas casas unidas, mas de diferentes alturas. No andar de baixo, tinha a cocinha, coa pedra do lar e o forno, a forja e as cortes dos animais. Enriba, no sobrado, tavam os quartos com as camas, as uchas, as palanganas coa sua jerra da água e o retrete de madeira, um talho cum furaco que caia acima da corte do esterco. Arredor da casa, havia cabanotes, umha curtinha e duas casinhas pequenas de caseteiros que pagavam umha renda anual
Carmelo trouxe um bom enjoival de sabas de lenço, mantas de estopa de lã e roupa que lhe procurou sua mãe. Pola sua banda, Elena mercou fontes de louça, jogos de café de porcelana e copos de cristal para os licores dos dias de festa ou funeral. Mandaram fazer um chinero de castanho com as iniciais de Carmelo gravadas nas portas de cristal. A casa era ampla e cómoda e os velhinhos de bom viver, assim que aginha se sentiam todo o felices que se podem sentir umha parelha de namorados, quando começa a sua vida em comúm.
Co tempo, chegou a primeira gravidez e, com ela, a primeira ilusão do filho novo. As noites de amor apaixonado e silencioso, davam seu fruto e um meninho havia de vir para alegrar a casa e justificar o trabalho na forja, as andainas polas feiras, com as ferragens, e as pequenas propriedades que Carmelo ia comprando aos velhos fidalgos de Romelhe, para juntar um herdo que lhe deixar aos filhos que iam ter.
Mas as cousas não sempre vem como as esperamos e, neste caso, torceram-se sem eles o saber… As tecelãs da vida tinham sobre o tapis outras colores diferentes às que eles escolheram para tecer o quadro do que ia ser sua vida juntos, os filhos, a velhez, todos os sorrisos que iam rir , as noites de amor apaixonado, a felicidade, tudo ia ficar trabucado e enleado no novelo da vida desde aquele intre…
Carmelo andava na forja, batendo num ferro tirado do lume para fazer um foucinho de cortar no monte, para umha encarrega. Os velhinhos andavam detrás da lareira, adurminhados, na manhá outoniça, Elena, grávida de cinco meses, andava na leira da curtinha, apanhando nabos para as vacas e grelos para lhe pôr ao pote do caldo, que fervia no lume com a talhada. Aquele São Martinho mataram um porco grande, e ainda tinham a carne salpresa no salgadoiro de pedra e os chouriços afumados com loureiro, pendurados da gamalheira. De súpeto, começou a se sentir doente. O ventre doia-lhe e apertava-se coma se um punho de ferro o estiver a estrochar e os cadrís semelhavam querer arrincar-se do sítio, cumha dor ardente e imparável. Agarrou-se ao ventre e, como pudo, foi andando cara a casa, engrunhada pola dor.
Quando alcanzou o talho da cocinha, sentou em ele tremando do ventre, com a face suada e sem color… Os velhinhos não se decataram da sua presença e ela, em siléncio, achegou-se à forja onde Carmelo malhava no ferro, sem ouvir nada do que passava arredor.
Quando ele virou a cara e a viu, parou o martinete e veu de seguido à sua beira.
-Que tés, Eleninha? Que é o que passa?
-Não sei. Tenho um mal muito grande no ventre e nos cadrís e não me posso mober.
-Vem. Vou-te levar ao leito e logo vou procurar a dom Manoel para que venha. Ja verás como não é nada.
Chanzo a chanzo foram subindo as escaleiras, até o sobrado. Logo ela, mal como pudo, deitou-se na cama e ele foi aginha na procura do doutor.
Mentras , ela ficou no leito. A dor era cada vez mais forte, até que, de súpeto, sentiu umha força dolorosa que apertava o seu ventre, e um rio de sangue saia do seu interior, escorregando por entre as suas pernas brancas, coma umha maré de morte e sangue perduda…
Quando o doutor chegou, confirmou o que ela ja sabia. O filho, froito daquelas primeiras noites de amor, ja não existia. Saira antes de tempo do seu seio, coma se não puider aturar mais a escuridade húmida da sua matriz. Elena ficou desconsolada. Defraudada e triste, por aquele meninho, concebido com tanto amor, ao que nunca chegaria a ver ja, nem a soster no seu colo, nem a amamantar ao seu peito.
Quarenta dias lhe durou a engroda, mas quando sua mãe veu para ver, não tive nada que lhe ensinar. Quando ficava soa, chorava bágoas amargas polo seu meninho. Se havia gente, tentava parecer animada, mas essa dor do meninho perdido, acompanharia-a toda a vida.
Pasarom os messes, veu o inverno e com ele outra volta a paixão e o amor volveram ao leito, disipando a dor do filho perdido.
Mas o tormento não rematou. Até sete filhos perdeu Elena sem lograr. Carmelo chamou aos doutores e visitou aos mencinheiros de mais soa do contorno. Cada um dava umha solução e Elena tentava-as todas, mas os meninhos resistian-se a permanecer no seu ventre o tempo preciso. Abandonavam o ninho antes de terem as aças para voarem…
Pouco a pouco, a ilussão foi-se perdendo e o caracter de Carmelo ia-se azedando cada vez mais. Cada vez mais sério e mais calado. Os velhinhos não percebiam muito bem o que passava, por que Eleninha, sendo tão boa e tão dóce, podia ter tam mã sorte e não ser quem de trazer um meninho a aquela casa tão grande e tão triste.
Um dia, Carmelo agarrou a besta, e, sem dizer nada, enfiou o caminho. Ia ir ver ao crego de Vilastose, um homen com fama de sério, a ver se, por fim, atopava algúm daqueles mencinheiros que não for um moinante chupom de quartos.
Saiu coas primeiras luzes do dia e, quando chegou, era meiodia. A casa do cura e a horta, ficavam cheias de gente. Homens, mulheres, meninhos que iam a canda seus pais. Tudos aguardavam silenciossos, que lhe chegar a quenda e os mandassem pasar. Assim foram passando as horas. Num entrar e sair de gente até que lhe chegou a ele a vez e umha moça, a sobrinha do cura, capeou-lhe e fixo que a seguisse por um corredor até um quarto onde o cura, um velhinho de cabelos brancos e cara miúda, ficava sentado a umha mesa de madeira, cheia de livros pousados. Detrás de ele, havia estantes com mais livros e acima da mesa, umha cruz.
O velhinho olhou-no em fite, sorriu e perguntou.
Carmelo abriu as comportas e do seu coração saiu toda a dor de oito anos de impoténcia e fracaso. As bãgoas esvaravam pola sua face e o coração encolhia-se-lhe, acreditando ser ele o culpável de tanta dor.
O velho deixou passar e, depois, com grande atenção, escutou o relato em silêncio. Quando rematou, ficou calado um pedazinho, e, depois, mudou o gesto por um sorrisso e diz:
– O que lhe passa à tua mulher, não é culpa dela, nem túa, nem de ninguém. È só que ela tem o sangue forte demais e não pode reter aos meninhos no seu ventre. Vas fazer esto que che digo:
Procura no rio umha dúcia de sambesugas, e que ela as ponha arredor do embigo. Quando se ponham gordas , cheias de sangue, estrocha-las e que as volva pòr. Assim elas zugar-am o sangue que lhe sobra e baixara-lhe a força que impede lograr os filhos.
Saiu de alí seguro de que, ao fim, atopara o remédio.
E assim foi.
A próxima gravidez rematou antes de tempo, aos sete meses, e o parto trouxe umha meninha pequeninha coma umha boneca, que levou o nome de Esperança. Depois de dous meses, ao cumplire-se o praço do seu nascemento natural, a meningite atacou sua pequena cabeça e a meninha tornou fragil e miudinha. Como outro filho vinha em caminho os avós levarom-a com eles ao coidado da tia Arminda, que ainda ficava solteira por aquel então. Esperança ia ser umha meninha fragil toda a vida. A sua inteligéncia medrava, mas sempre ao paso dos meninhos, chegou a viver até os setenta anos, mas sempre com a inocência e a fragilidade das crianças.
De maior volveu à casa de Casal, quando sua mãe morre e alí ajudaria a criar às sobrinhas e aos seus filhos, contando-lhe contos e histórias maravilhosas argalhadas no seu magim, jogando aos naipes com eles, ou puxando polo bambão pendurado da póla da maceira da horta…
Depois de Esperança, nasceu um varão. Daniel, coma o velho da casa. Depois Carmelo, e, por fim, Eleninha. Quando nasceu esta última filha, a hipertensão de Elena ja era mais forte que as sambesugas e produciu-lhe umha ambólia cerebral que a ia deixar tolheita do lado dereito e coa faculdade de falar diminuida.
A partir desse momento, a casa mudou. Pasou a estar governada por mulheres alheias que vinham ao jornal, remexiam nas uchas e nos roupeiros e, a miudo, levavam para as suas casas teas de lenço, rendas, e demais tesouros que Elena fora juntando nos seus anos de ama da casa. A única mulherinha da casa agora era Eleninha, a filha, que ia medrando coa pessada pena de ver sua mãe tolheita e seu pai cada vez mais azedado e triste…

IV

Escura tristeça

Mas as penas ainda não remataram, o pior ainda quedava por vir. Corria o ano 36, e Carmelo, homen travalhador e inquedo, fora votante activo da Fronte Popular. Umha noite de agosto, presentaron-se na casa os irmãos da Moca, falangistas da vila, os mais activos em passeiar e torturar republicanos. Levam consigo a Carmelo, e deixam a casa mergulhada num mar der sombras e bágoas. Elena manda chamar ao pai, homen de dereitas, mas tranquilo, que nunca fora partidário dos passeios nem outras cousas terríveis que se viam na vila nos últimos dias desse verão.
Ele fala cos seus amigos e pide clemência para o homen que tinha que coidar da sua filha, dos netos e dos dous velhinhos que ainda quedavam.
No entanto, Carmelo fora levado à Casa Consistorial, e encerrado num quarto com outros homens. Quando se abriu a porta, chamarom a dom Raul, o alcalde da vila anos atrás, tio dos dous irmãos falangistas e padrinho de um deles. Era ja um homen de idade, co cabelo branco e as mãos trementes. Ao pouco de cruçar a porta, um berro arrepiante faz tremer a todos os alí encerrados. O velho alcalde bradava coma se lhe arrincasem as entranhas e dicia, entre saloucos:
– Deixa-me, Lois, que som teu tio, e teu padrinho! Pola alma dos teus avôs, não me malhes mais!
As lavazadas escachavam detrás da porta, e a voz ia perdendo força a cada momento…
Carmelo era o seguinte, e pensou em Elena, no dia do casamento, na sua face dóce co seu peiteado e os brincos de ouro. Pensou também na primeira noite, na doçura suave e mol da sua carne branca, no calor recendente do seu corpo, na dozura dos seus lábios de mel…Pensou na perda dos seus filhos, na dor que o posuia, em siléncio, mentras travalhava na forja,na sua mulher eivada e nos pequenos que ainda quedavam por criar…As bágoas começavam a lhe escorregar pola faciana, e o desconsolo da desesperança apoderou-se do seu ser.
Mentras tanto, o seu sogro mobia-se cos amigos, coas autoridades, cos senhores de Romelhe e de Martelo, de quem fora perito toda a vida, para peçar cleméncia para o seu genro.
Por fim, ábre-se a porta e um homen com camisa azul chama_
-Carmelo Reis!
Carmelo segue ao homen e traspassa a porta, acreditando em que essa, ser-ia a sua derradeira viagem.
O homen olha-o em fite, e di:
-Pode você ir embora. Não o precisamos para nada mais. E agradeza que o seu sogro é um homen bem relacionado. Vaia para a casa e coide de não andar em mãs companhas.
Ja nunca nada volveu ser igual na casa dos Merlos. A vida perdeu luz, segurança e ledícia. De vez em quando os senhores da camisa azul achegavan-se pola casa e requisavam os cuchos, o milho das uchas, os porcos da ceba, ou o que cadrase. Suviam aos cabaços, remegiam as arcas, colhiam chouriços da gamalheira, ante a olhada asustada dos meninhos e a triste impoténcia de Carmelo e Elena que, desde a sua cadeira, mirava como aqueles homens, vizinhos e mesmo parentes, levavam o grão sem reparar nos filhos pequenos, nem em ela, nem na sua casa que quedava sem pão…
Foram anos de tristura e necessidade, que remataram por avinagrar o caracter de Carmelo e privar aos meninhos dumha infáncia feliz… Carmelo, desde aquela, não volve ser o mesmo. Saturado de tristeça, cava umha fosa profunda, e enterra em ela sua felicidade .O coração enche-se-lhe de carragem e a alma vai-lhe secando, como secam as terras onde se verqueu sal. Só pensa em travalhar, levar ferragens às feiras e manter à família. Toda a alegria foxe de ele, e só lhe queda o azedo do vinagre nas feridas. Assim cria aos filhos, na acedume e no rancor contra a vida, na autoridade exercida desde o mais absoluto desamor. Carmelo ficou seco por dentro, e duro, coma umha pedra das que travalhava na quadrilha do pai, ou coma um ferro frio da sua forja .

Assim seus filhos foram criados. Sempre agardando sua desaprobação, suas interminãveis reprimendas e reproches, o descontento com tudo o que faziam…Logo, à noite, pagava-as com Elena, na cama. Ronhava e ronhava até quedar durmindo e mais dumha vez levantou-lhe a mão…Ela aturava tudo aquelo com serenidade, e tratava de que os raparigos não se decatar, mas Eleninha sentia de noite rifar ao seu pai e mesmo bourar em sua mãe e umha inmensa tristura ia-se apoderando do seu ser, acreditando ser ela a culpável porque, se não nascer, a sua mãe ainda estaria bem para se mober, ir à feira e governar a casa, como faziam todas as mães das outras raparigas…


V

A madeira

Co tempo, Carmelo decide deixar o ferro, como antes faz coa pedra , e andar à madeira. Manda fazer um galpão e merca a maquinária precisa para um serradoiro: A serra, co seu carro, a limadora, para afiar os dentes melhados das serras, a canteadora, para cantear as táboas, e a ferramenta: As pás de pelar os pinheiros, as limas, o esmeril, e até manda construir um forno de barro e cachote para queimar as serraduras…Pouco a pouco, o terreo de arredor vai-se enchendo de castelos de tablões, táboas e tablinhas ou bilhó. Os homens carrejam os pinheiros do monte e depois de travalhados e seca a madeira, levam-a em carros de bois até a Ponte da Ria para embarca-la, com a maré cheia, cara o peirão de Camarîs, de onde saia em grandes embarcações .
O serradoiro travalhava cada vez mais, e a demanda de madeira aumentava. Os filhos ja eram grandes e tinham corpo e idade para o travalho. Os dous varões, eram muito diferentes entre sim.
Daniel, o mais velho, travalhava na terra e no cuidado dos animais. Ia roçar ao monte tojo para estrar as vacas e manter a besta, era muito travalhador e pouco amigo de lérias.
Carmelo, o mais novo, gostava muito de aprender e o pai mandou-no à escola do Telegrafista, um homen que dava clases e pasantias na sua casa para os moços que queriam ampliar seus conhecementos ao sairem da escola.
Carmelo era listo e engenhoso, gostava de fazer riso cos operários do serradoiro, quando seu pai não mirava, abria as portas das lacenas para comer os chouriços sem que ninguém soubesse como fazia que ficassem fechadas e os chouriços desaparecessem na sua barriga fraca, e fazia frautas de cana, aneis de latão para lhe agasalhar à sua moça, ou talhava carrinhos de pau que dava glória ve-los coa sua navalha. Ficava muito unido à sua irmã, Eleninha, à que fazia devecer, mas à que adorava. Era generosso e desprendido. Cobiçava as cousas para logo, quando conseguia, agasalhar com elas à irmã,aos amigos, ou à sua noiva, da que ficava totalmente namorado aos seus vinte anos. Era branquinho de cara, de olhada dóce e corpo lançal, gostava da boa roupa e os bons sapatos, e era um moço alegre, optimista e inteligente. Sua mãe sentia-se muito fachendossa de o ver, tão guapo, tão rideiro e inocente
Daniel era diferente: Pequeno e forte, de génio quente e bravo, atravesado nas falcatruadas que maquinava cos companheiros, sufrido e duro coma um calrou apegado à terra. Calado e introvertido. Não adoitava fazer agasalhos nem se ocupava das etiquetas sociais. Era um trabalhador da terra , pouco dado a sensibilidades, coma o seu irmão. Era esquerdeiro, mãlia o seu pai lhe ter atado umha mão ao pé da mesa, de pequeno, para lhe corrigir o defeuto.
Os dias iam transcorrendo de vagar, em Vimbio Verde. Os carros iam e vinham coa madeira, o serradoiro tinha umha dúcia de homens travalhando, A senhora Elena olhava passar a vida, sentada na sua silha, coa sua maínha dereita no peto do avental, enchendo a fornilha da cocinha económica de cascas e de serraduras. Disfrutava cos filhos nos domingos de feira, quando o pai ia embora e eles ficavam sós, com a mãe, frigiam patacas e faziam folhados com tiras de touzinho de freba. Riam e cantavam. Quando o pai chegava, passava revista às tarefas que lhe encomendar aos filhos e, quase sempre, fazia-os levantar do leito e pôr em fila para lhes rifar e obrigar-lhe a re-fazer o trabalho meio adurminhados, em calções e em camisinha por entre as vacas, estrando-as ou dando-lhe de beber por segunda vez na mesma noite.

VI

Mudanças

Carmelo Reis, o pai, ficava satisfeito do seu serradoiro, mas não assim dos seus filhos, aos que considerava pouco capacitados para se defender na vida e formar a família que ambos dous tinham ideia de encetar com as moças das que andavam namorados. Um dia, chamou por eles, depois da ceia, quando os demais da casa se retiraram para dormir.
Ele ficava sentado na cozinha, num banco de madeira que estava acima da pedra do lar. As ascuas ja iam meio consumidas e só quedava a pila de cinsa debaixo do pote.
Os dous filhos entraram pola porta e ficaram de pé dereito , fronte dele, agardando algumha censura ou reprimenda, como era habitual.
Ele olhou-nos em fite, um bom pedaço, e logo falou:
-Chamei-vos para falar com vós de algo que venho cavilando há tempo.
Eles quedaram calados.
– Agora ja sodes homens, tendes moças e queredes casar com elas, não é?
– Sim. Disse Carmelo. Daniel ficou calado, agardando.
Carmelo sentiu o seu coração saltar no peito, porque acreditava em que o seu pai lhe ia ofrecer um trabalho pagado para poder casar com Marica, o seu grande amor desde que tinham catorze anos.
– Bom. Pois eu ja levo tempo observando o que fazedes e como são os vossos modos, e tomei umha decissão. Depois de ver as vossas capacidades e maneiras de vos enfrontar à vida, cheguei a um convencemento.
Angústia dos irmãos,incerteza de não saber a que vinha tanta reviravolta.
-Coido, meus filhos , que não tendes ningumha possivilidade de valer-vos sós, sem vosso pai que vos mantenha. Não acredito em que sejades homens feitos e dereitos pata vos enfrontar à vida ou a formar umha família, assim que tenho decidido arranjar os papeis para que vaiades para América. Alí aprenderedes a vos defender sós e, se vos vai bem, podedes chamar às vossas moças e casar com elas aló. Muita gente vai agora para Buenos Aires, dim que alí se ganham muitos quartos, assim que decidi que forades provar vós também. Se tendes sorte, espera-vos umha vida melhor do que aquí.

Em aquele momento, Carmelo estava a perder seus filhos para sempre, mandando-os, contra da sua vontade,longe da casa, a onde endejamais iam volver.

VII

Ir embora

Ir embora era o que lhe esperava aos dous irmãos, por decissão do pai, que não de eles…Certo que muitos iam para América, mas eram filhos de famílias muito numerosas, que não tinham terra para tudos viver, ou caseteiros de lugares pequenos, ou moços sem possesões familiares, filhos de mães solteiras sem terra nem ofício. Onde se vira que os filhos de Carmelo do Vao tinham de ir para América? Não tinha o pai travalho para umha dúcia de operários, dados de alta na Seguridade Social, cousa excepcional em toda a redonda? Por que não para os seus próprios filhos? Esso é algo que ninguém nunca pudo perceber, e mesmo o próprio Carmelo, quando ,o tempo vai passando, não consegue entender o por que da conversa que tive aquela noite com os seus filhos. Tal vez a sua decepção coa vida, que o levava a viver sempre com medo a aceitar o que ela lhe trazia, tal vez o temor de ver aos seus filhos sofrer o que ele,tal vez a intransigéncia, que ia apoderando-se de ele a grandes alancadas…Ninguém saverá nunca o que dou pulo à sua decissão. Ele, mais tarde, dizia que o seu desejo de que se fisser homens de proveito, tentando disfraçar a sua desconfiança, o pouco valor que lhe dava a nada, agás ao travalho…
O caso é que essa decissão trocou para sempre as vidas e os sonhos dos dous moços, mas também da família. Faz chorar à sua mãe bágoas amargas polos dous filhos varões que conseguira trazer ao mundo depois de tão longa espera, que acabou por murchar sua beleça, e que eram as meninhas dos seus olhos, seu orgulho e sua tábola de salvação fronte à malhumorada brutalidade do marido.
Mas o tempo não para com ninguém e, pouco a pouco, iam arranjando-se os papeis, pouco a pouco a conta atrás ia debulhando os dias, pouco a pouco, os filhos faziam-se conscientes de que não havia volta atrás. De que os amores, os sonhos e a casa da sua infáncia, iam esvaendo-se da sua realidade, que não do seu coração. Assim foi esfarelando-se a sua vida cotiá, de vagar, até ficar reduzida a cinsa, coma a que esmorecia embaixo do pote a noite da fatal conversa com o pai…
Chegou a víspera do embarque. Os dous irmãos não podiam viajar juntos, porque Carmelo, o mais novo, era novinho demais e ainda não cumplira com o serviço militar. Por esso tinha de ir embarcar a um porto de fóra, para não chamar a atenção dos encarregados do embarque do porto de Vigo. Depois de o consultar, decidiram que ir-ia embarcar a Cartagena, porque de alí não saiam emigrantes e não reparavam na idade dos que embarcavam.
Daniel saia de Vigo, o porto de embarque de milheiros de homens que iam embora para América, na procura dum sonho ganhado com bágoas, saudade e tristura, arrastrados polos arrabaldos lamacentos e polas ruas iluminadas de B.A.
Levava umha mala de madeira, coas camisas e os trajes novos que seu pai mandou fazer. A noite antes da sua partida, os parentes e os vizinhos, juntaram-se na casa para lhe dar a despedida. Coma se fora o velatório que não iam poder dar-lhe aos dous rapazes quando for a hora de o fazer. Sua irmã, passava o ferro pola roupa, entre saloucos, e a mãe, sentadinha na sua silha, olhava para os seus filhos tentando desenhar um sorriso na sua boca, para não os atristurar…
As horas foram pasando e o dia foi abrindo paso por detrás dos montes do Barrigoso e, antes de o sol sair, chegou a hora da partida.
Daniel abraçou sua mãe e sua irmã, e, sem dizer palavra, colheu a mala e botou a andar porta afóra.Alí agardou debaixo da cerdeira a que saisse seu irmão.
Carmelinho apertou-se forte contra a sua mãe, que se levantou, ajudada pola filha, e saloucava tão forte, que a gorja ameaçava com se lhe fechar. Logo agarrou a sua irmã e apertou-na forte contra o seu peito.. As bãgoas escorregavan-lhe polas suas fazulas brancas . A sua dor era coma a dos penedos escachados pola barrena, como a da unlha que arrincam da carne, como a da árvore arrincada da sua raiz. Apertava contra sim à irmã, num intento de pôr fim a aquele mãu sonho e que tudo volvesse a ser coma antes. Sem aquela dor que o asulagava por dentro e o abafava…Queria volver ao serradoiro, às pasantias do telegrafista, a dançar com Marica em Monte Toram, a abrir as portas das lacenas e comer os chouriços recendentes de loureiro…Dias felizes que ja ficariam para sempre longe, quando saisse para Cartagena. Queria esquecer Cartagena, Buenos Aires, América e o demais, coma se não tiver existido nunca, agás num pesadelo do que ia espertar aginha para ficar para sempre em Vimbio Verde, na sua casa, com sua gente…
Mas a hora do carro da linha, achegava-se e o pai diz:
-Ala, há que ir embora, se não queredes perder o carro.
Foram baixando polo caminho da curtinha, paso a paso, pasando a carom das pereiras e as maceiras espidas, cheias da geada branca do mes de janeiro. Ao chegar á estrada, volveram a olhada cara a casa. Na porta ficava a mãe, amparada na sua irmã Eleninha, sua irmã Esperança e os avós. Abriram bem os olhos, para tentar levar a imagem consigo. Assim a levaram para sempre, até o momento em que seu derradeiro alento sair do seu peito a se mesturar co ar cheio de fume da cidade do Rio da Prata

A verdadeira partida começou ao subir no carro. Ao chegar ao alto das Lagoas, num ritual de tudos os que partiam de Vimbio Verde cara América, o carro parou e os irmãos baixaram para olharem o val por última vez.
Aló embaixo quedavam os campos, as milheiras vazias cheias de canhotos, os nabais,os caminhos por entre a agra, o monte da Vela, o rio, a casa…Todo envolto no fume da névoa que, a aquelas horas da manhã, ainda não levantara. Aló embaixo quedavam também as pessoas: a mãe, as irmãs, as noivas, envoltas na névoa fria da manhã invernia…
Depois duns instantes, volvem ao carro e então é quando remata de encetar a viagem. Atrás queda tudo, fóra do alcance da sua vista. O fio que os mantinha unidos à sua vida anterior, acaba de quebrar para sempre. Perdido ja o contacto físico com a sua realidade até aquele momento: A visão, o recendo, o ouvido e o tacto da mãe que lhe dou a vida e o primeiro calor, e da terra que lhe dou a primeira conciéncia da realidade com as suas cores, os seus sons, os seus cheiros, a sua luz e as suas mudanças…
O carro ia correndo. Passaram Santa Baia, a terra do pai- tantas lembranças dos dias de festa na casa dos avós do Vao- A Golada, A Castinheira, até chegar à Corunha. Ali seus caminhos separavan-se: Daniel colhia o comboio para Vigo e Carmelo para Madrid, e depois Cartagena.

I

Irmã

O senhor Camilo do Merlo, perito e escrivinte do Concelho de Vimbio Verde,homen bom, amigo de escrever poesias e fazer favores, tinha sona de ser muito amigo de andar entre as saias das mulheres, e não era sem razão…
A sua dona, Bemvinda da Marcuda, casou com ele quando Elena, a filha, tinha doce anos. Antes Camilo ia e vinha, fazia promesas, mas não as cumpria. Um dia ela, cansa, colheu a filha e foi embora para Buenos Aires. Logo de sete anos, ele mandou-as volver e, ainda que Bemvinda ja não queria casar nem volver, Elena queria ter um pai de seu, e convenceu à sua mãe, com a madurez que lhe era propria, de que deveriam volver a Vimbio Verde.
Quando estiver de volta, Camilo queria volver às nozes ao saco, mas ja era tarde demais para fazer essa falcatruada e acavaram casando em segredo, de noite, na casa do cura, como canta a cantiga:
“Ai, se queres na cás do cura…Ai, na cás do cura seráaa”.
Por que tanto segredo?
Pois nem mais nem menos porque, dom Camilo, de tanto andar entre saias, e entre pernas de mulheres, algo delas se lhe pegou. E nada bom, por certo. Porque mulheres há muitas no mundo, e filhas de muitas mães…E homens que andam com elas, também. E a vida é umha aranheira, onde todos os caminhos se cruçam…
O caso é que o bom do Camilo pilhou umhas purgações que, em aqueles tempos de escassos antibióticos não sabiam como atalhar. O homem andava muito afligido e, sobre tudo, triste por não poder fazer o que mais gostava, assim que consultou com Manoel, o médico amigo, para que o aconselhar,
E qual fui o conselho?
– Camilo, amigo, para esse mal não tenho mencinhas, hom. Vaia que és bem amigo de a meter onde não corresponde…Se a tivesses queda , não chegarias a esto.
Olha que eu, não sei que podes fazer para te curar, mas ouvi dizer que, se desvirgas a umha mozinha, o mal desaparece.

E assim, Camilo, ja tinha motivo justificado para lhe fazer as beiras e deixar prenhada a Lucia, umha rapariga de quinze anos do lugar da Cabana, na outra banda do rio.
Ela era dumha familia pobre. Não tinham mais que o dia e a noite: Nem terras, nem animais,nem casa de seu. Lucia, com dezaseis anos, pariu umha meninha preciosa, com dous olhos negros coma duas estrelas. O pai, nunca mais volveu onda ela, ocupado como estava coa volta de Bemvinda e Elena, e o asunto da voda .
Assim começou a carreira de Lucia de mãe solteira, sempre procurando um homen que a quisser para casar, mas, desde que vinham os meninhos em caminho, “Si te he visto, no me acuerdo”.
Era o destino das mulheres pobres, sem nada de seu, mas que as suas mãos para trabalharem. Mas o trabalho, era mal pago. Umha cunca de caldo, ou dez reás por um jogo de labor para adornar a cama dos ricos…
Mas a vida segue seu curso, e o sol sae para ricos e pobres, e a meninha tinha que ser baptiçada .
Baptiçaram-a co nome de Amara, e, desde pequeninha, destacou pola listeça que tinha e o linda que era a sua cara moreninha e o seu corpo feito coma um quarto. Calquera trapinho que punha, quedava-lhe bem.
Só pudo ir tres messes á escola, mas o mestre diz que era muito lista. Nos tres meses aprendiu leitura escritura e os números. Não lhe dou tempo a mais.
Um dia, quando tinha treze anos, sua mãe falou-lhe:
– Amara, minha meninha, a tua tia Carmela, que serve na casa dos Castros, de Cancelas, diz que os da família de Leira precissam de umha rapaza para lhe ter conta dos meninhos. Alá estarás muito bem, filhinha, e poderás comer quente todos os dias . Eu, com o que saco do labor, não posso te manter a ti e aos teus tres irmãos. Pensa-o bem, minha rainha. Se queres ir, tua tia há te vir buscar o domingo que vem.
– Bom, mamãe. Como você queira. Eu faço o que você mande.
-Ja sei minha filhinha, que és bem mandada. Não se fale mais do conto . Imos preparando a tua roupinha e o domingo, vas com tua tia para aló. Se não tas contenta, volves para a casa. Que um pedaço de broa, não nos ha de faltar.
E assim foi como, o domingo, Amara e mais sua tia colheram o coche de punto para irem a Cancelas.

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II

Cancelas

Cancelas era a vila mais grande e próspera da redonda. Na beira do mar, ao pé dos montes da Lobeira, o motor da sua economia eram os prósperos estaleiros da família dos Castros, que mesmo contava cum banco própio, e a fábrica de gas, que, coa sua cheminé coroada de lume, não parava de noite nem de dia o seu processo de produção.
Quando Amara baixou do carro com sua tia, quedou pampa . Os olhos não lhe davam abondo para mirar tudo o que iam vendo: A estação dos carros de punto, cheia de gente e de carros que iam e vinham a Santiago e à Corunha, as ruas da vila, com as suas beirarruas e as praças com seus jardins, as casas novinhas, com grandes balcões e galerias cheias de vidros de colores… E, ao fim, a Alameda, com suas árvores de copas frondosas, seu palco de música, e os bancos de madeira pintada de branco, com respaldo de ferro forjado…Quando tava ademirando tudo aquelo cos olhos bem abertos, para que não se lhe escapar nada, a tia Carmela disse:
-Bom, minha filhinha, Ja chegamos. A casa dos Leis é essa de aí. Vou-te levar e depois tenho que ir para fazer a ceia. Amanhã, quando vaia ao rio, ja passarei por aquí, para ver como estás.
– Vaia tranquila, minha tia, que hei de estar bem.- diz mentras abaneava, sem se decatar, a saquetinha da roupa-.
A grande porta de madeira da casa dos Leis, ficava aberta, mas, depois do limiar, tinha umha entrada adornada cum friso de baldosas de debuxos azuis, de pássaros e pólas cheias de frutas, rematados por umha faixa de placas de color azul cobalto. Depois vinha umha outra porta branca, cum vidro opaco de desenhos de flores, e umha campainha dourada com umha cadeia, para chamar.
A tia Carmela tirou pola cadeia dourada, e a campainha repenicou igual ca da igreja de Vimbio Verde, os domingos, quando chamava à missa.
Saiu umha moça nova, vestida de negro, com umha diadema branca, adornada de encaixe,muito tesa, na cabeça,e um avental do mesmo jeito- Amara coidava que aquela devia de ser umha senhora muito importante, por como ia habilhada –
_ Boa tarde, senhora Carmela, que é o que quer?
_Traço minha sobrinha, como quedei de fazer com dona Amélia.
_ Agora vou avisar a dona Amélia. Aguardem vocês aquí.
Passaram dentro, a umha salinha cheia de cousas: Havia cadeiras muito grandes, forradas de veludo vermelho, muito suave, um sofá com respaldo de madeira, forrado também cum tecido de flores de color malva, umha mesa de madeira que brilhava coma um espelho, quadros de animais correndo polo monte, e umha lámpada que chorava lágrimas de cristal pendurava do tecto, brilhando toda ela com a luz dourada do solpór que entrava pola janela.
Amara pensou se aquelo seria o céu do que tanto falavam as mulheres, quando lhe mandavam guiar-se polos mais velhos. Sim Devia de ser o céu, a onde a levaram por se guiar e ser sempre muito agudinha para ajudar à mamãe cos tres irmãos pequenos. Desde logo que até agora, sem saber por que, porque ela não fisser mal a ninguém, estive a morar no inferno. Alí moravam ainda a mamãe e os nenos -dous varões e umha meninha- mas não sabia ela por que tinha que ser assim. Tal vez porque a mamãe não tinha homem, e esso era muito castigado polos deuses que sabem todas as cousas que faz a gente. Tal vez fosse por esso, sim, porque no lugar da Cabana, havia muitas mulheres sem homem que tinham filhos coma a mamãe. Seria por esso que o lugar estava castigado a ser um inferno de lama, canheiras de estrume, casas sem mais ca um talho na pedra do lar e enxergões de casula de milho para dormir.
Nunca na Cabana se vira umha moça tão bem vestida coma aquela que sair abrir a porta, nem nada das cousas que ela levava vistas em Cancelas nem naquela casa desde que chegou.
Quando andava cavilando nessas cousas, chega umha senhora vestida de azul, cum vestido enteiriço que lhe chegaba embaixo dos joenlhos sujeito na cintura por um cinto e franzido para abaixo. Era morena e tinha a pele suave e fina, sobre tudo as mãos. Nunca vira Amara umha pele tão fina nem umhas mãos assim. Pensou na mamãe, com suas mãos cheias de calos e a sua face áspera, com engurras na fronte e arredor da boca. E nas tias, e em todas as mulheres que ela conhece. Nemhumha pode se comparar com esta senhora.
-Dona Amélia, mire, que lhe venho trazer a minha sobrinha, como quedamos. È-lhe muito boa e guiada. Claro que, a pobrinha, não sabe muito porque nunca saiu da aldeia, mas é lista e há aprender aginha.
-Algo pequena demais me parece, para ter conta das crianças, Carmela.
-Você quede com ela por uns dias e, se depois não gosta, não há compromiso, senhora.
-Bem. Vou fazer logo o que você di. Vem, menina. Como é que te chamas?
-Chamo-me Amara, senhora. Amara Lema.
-Bom. Eu vou indo logo, que se me faz tarde. Adeus, Amarinha, guia-te bem, miguinha, amanhã ei passar por aquí.
A tia marchou e a meninha quedou alí, com aquela senhora .
-Bem, linda. Sabes falar castelã?
-Não, senhora, eu só sei falar assim. Não sei outra cousa.
-Bom, não importa, ja irás aprendendo para falar com os meninhos. E sabes como há que coidar às crianças?
_Esso sim, que sempre cuidava dos meus irmancinhos , mudava-os e dava-lhe as sopas ou as papas.
-Bem. Agora imos chamar a Adelina para que se ocupe de ti. Eu sou dona Amélia, a tua ama, Adelina é a criada, e também temos umha cocinheira que vem cada dia fazer de comer, que se chama Marinha. Ti tés que te guiar por mim e mais por Adelina e fazer como ela che mande. Agora vai vir a costureira, para que che tome medidas. Ha-che fazer roupa nova para quando saias à rua, com os meninhos, para o passeio. Tés de ir sempre bem limpinha e bem hebilhada, com a roupa bem postinha. A nossa família é muito importante em Cancelas e todos os da casa temos que ir sempre bem postos. Sim?
-Sim, senhora. Perda coidado, que eu gosto muito da roupa nova e de ir bem vestida.
-Penso que nos imos entender bem. Adelina! Leva a Amara ao seu quarto e ensina-lhe a casa. Depois da-lhe a merenda e di-lhe o que tem que fazer.
-Sim senhora. Vem, rapariga.
Amara caminhava detrás de Adelina por aqueles corredores de chão reluzente coma um espelho. Subiram as escaleiras de madeira degrau a degrau, até chegar a um corredor cheio de portas cerradas. Foram cara adiante e entraram na terceira porta à mão esquerda. Era um quarto grande,com umha janela cuberta de tea azul, que deixava passar a luz do pôr do sol ao seu través. No meio e meio, havia duas camas iguais,de madeira de castanho retorneada, cubertas por umhas colchas de seda azul com flores brancas bordadas e, ao seu carão, um berce de madeira com pés curvados para o arrolar. Contra a parede, havia um armário de espelho e mais umha arca pousada no chão.
_Este é o teu quarto. Podes deixar aí a saqueta da roupa e logo volves guarda-la. Agora vem tomar a merenda e mais conhecer aos rapazes.
Não sabia Amara Lema que aquele ia ser o seu primeiro dia da sua vida de mulher. Em Cancelas ia viver moitas cousas. Algumhas muito felizes. Outras muito amargas. Polo momento, a sua nova vida começou comendo dóces, bolos e chocolate quentinho, com o que a sua ideia de ter acadado o céu era cada vez mais firme.

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III

Sangue espesso

Passou Amara Lema sete anos em cás dos Leis, criando aos filhos da família.
Co tempo foi-se fazendo umha moça muito linda.
Morena, com o cabelo ondulado, andava com a graça dumha andurinha e tinha lume nos seus olhos negros.
Aos moços da vila, não lhe passou desapercibida a rapariga, mas ela era muito séria. Não queria que lhe passar coma a sua mãe. Ao fim ,por muito que estivesse em cás dos Leis, ela era umha criada de servir e pobre, porque travalhava pola mantença e algum quartinho de vez em quando para os seus gastos. Desde logo, não queria volver ao inferno do que, só por casualidade, sair.
Mas velaí que as tecedoras da vida, tece que tece, põem no seu caminho a Adrião, o mais velho dos irmãos da família dos Barrosos.
A família dos Barrosos era umha boa família da clase operária de Cancelas. A mãe, Joana Barroso, era umha mulher de muito génio, grande e forte, que arrecadava aos seus seis filhos e filhas e fazia-os andar dereitos. O seu marido, Pedro, era um homem tranquilo e pacífico que travalhava de carpinteiro.
Adrião, o filho mais velho, era um travalhador qualificado na fábrica do gas, manejava os guindastres e era aprezado pola sua seriedade e responsavilidade no travalho.
Amais desso, no tempo livre, tocava o clarinete na banda de música de Cancelas, estudava polas noites o bacharel e exercia de sindicalista convencido e comprometido, sendo tesoureiro da “Casa del Pueblo” que, por aqueles anos , aglutinava a vida cultural e política da vila.
Tinha vinteum anos quando conhece a Amara, e, desde o primeiro dia, fica prendado daquela rapaza tão fermosa.
Ia fazendo-lhe as beiras, mas ela não se fiava das suas intenções. Sua mãe e suas tias tinham-a bem avisada:
-Não confies nos homens, minha filhinha. Mira que para namorar todos sou muito boinhos, mas, desde que tem o que querem, não fam caso dumha mulher pobre. Há tantos homens bons, coma corvos brancos…
Mas…Que seria do mundo se todo o mundo faz o que lhe dim os mais velhos? Não haveria mudanças, nem caminhos que percorrer.
Assim que, Amara, pouco a pouco, vai-se deixando engaiolar por aquele moço tão sério. Porque ela, alá no fundo, ficava convencida da sua honestidade. Hadriano era recto e firme coma o mastro dumha dorna. E ela sentia-o forte por dentro,um homen cabal. Assim que, pouco a pouco, foram deixando-se ver juntos. No passeio dos domingos pola tarde, na festa da Junqueira, nas funções que orgaiçavam os do sindicato com teatro, zarzuela,cinema, concertos…Em todas as actividades que Hadriano mais os companheiros participavam e em outras que havia na vila. Em aquele tempo Cancelas era um fervedoiro de actividade.
Quando a senhora Joana Barroso soube que o seu filho mais velho, o que ajudava a soster a família, andava em tratos cumha criada de servir, dou-lhe um ataque de génio que volteou a casa enteira. Berrou-lhe às filhas, por não a terem avisado, berrou com o homem, por não ter reprendido ao filho, berrou com os outros filhos, por não ter dito nada, e, quando chegou Hadriano do trabalho, berrou também com ele e disse que deixasse estar o assunto antes de que as cousas chegassem a mais.
O Adrião, muito tranquilo.
-Olhe, mamãe. Você não tem que me dizer com quem tenho que andar ou não. Eu sou um homem, ganho o meu pão, e você não tem que se meter nas minhas cousas. Sinto que não goste de Amara, porque é umha rapariga muito linda, trabalhadora, e limpa. Você nem sequer conhece. Só a despreza porque tem que trabalhar para ganhar seu pão. Pois, para mim, é umha honra que trabalhe, e prefiro mil vezes umha mulher coma ela, que essas senhoritas das que você gosta. E não volva fazer este rebumbio, porque não vou consentir.
-O que? Assim lhe falas a tua mãe, desagradecido? Um homem…Ainda há pouco que andavas cos cueiros… Pois ainda que adoeças, com ela não casas, como me chamo Joana Barroso.
E, com muito empaque, marchou escaleiras arriba, cara a cozinha, rosmando e mobendo seu grande corpo a toda velocidade, botando fume, coma umha máquina de vapor.
De alí a pouco, um dia que passou polo rio, viu a umha mocinha lavando e pareceu-lhe a ditosa Amara, a que trazia a mal trazer o seu filho. Sem o pensar duas vezes, enganchou-a polo periquete e malhou em ela coma em centeio verde.
-Has de aprender ti a deixar tranquilo ao meu filho, regateira.
A outra protestava e berrava coma umha tola, sem atinar o por que da malheira.
Quando as cousas, ao fim, foram parando, e a lavandeira ficava com o cabelo todo levantado, e feito um novelo, a senhora Joana repara em que aquela não é Amara, senão a Piculina, que, ao estar de costas, acima do lavadoiro, não pudo ver bem. Mas, de certo que assim, era igualinha que a outra. Claro que, de frente, semelhavan-se mais bem pouco…
A cousa não quedou aí, porque os passarinhos que em todas as vilas contam as cousas e, a onde não chegam mandam recado, logo chegam a cás dos Leis e põem os feitos em conhecemento dos seus moradores .
Amara, que tinha o génio e a figura dumha rainha de espadas, fui onda o juiz, dom Abelardo.
-Mire, senhor. A mãe do meu moço malhou na Piculina pensando que era eu. Venho avisa-lo, para que a reprenda. Não vaia ser que para outra vez atine e eu não tenho por que as levar de ninguém. Eu, a essa senhora, não lhe fisse mal nemhum.
-Tés razão, mulher. Vai tranquila que esto ja o falo eu com os de Barroso. Vaia, que lhe dou boa ideia a Joana. Essa mulher é bem brava, carafio.
Assim dom Abelardo chamou a Pedro e a Joana .
-Pobre de ti que volvas a te meter com ninguém. Quem és ti para bourar na Piculina nem em outra? Pensas que ti és melhor ca essa rapaza que anda com o teu filho? Pois é bem linda e trabalhadora. E bem formal, que nunca nada se ouviu dela. Ti ainda has de querer que os teus filhos casem com que ti lhe digas. Deixa passar a água por embaixo da ponte que, quanto mais te metas, pior o has de fazer.
-Imos para a casa, mulher.Que vergonha andar na boca da vila enteira! Ti não tés conhecemento. Vaia por Deus! Imos de aí, e deixa a Hadriano tranquilo, que ele é um homen feito e dereito, e bem sabe o que lhe convem. Por que tés que andar ti metendo-te na vida dos filhos?
-E logo quem os pariu? E quem tivo conta deles? Fuches ti, por um acaso? Não me faças falar, que os homens não sabedes nada destas cousas. Tantos anos criando ao meu filho, para que venha agora essa lagarta leva-lo. Se ainda não tem mais de vinte anos…
-És bem impossível, mulher. Ja ouviches ao juiz. E ja viches os vinte pesos de multa que tivem que pagar. Anda com tino e não volvas a dar que falar.
O conto foi morrendo, e Adrião e Amara seguiam seu namoro. Mas Joana Barroso não passava um dia sem se queixar com o filho, com o homen, de noite, na cama, coas vizinhas ou com quem se puxer a tiro. A sua teima não morria, mais bem aumentava ao ver que aquelo seguia seu curso cara um desenlace-ou enlace- fatal…
Quando levavam um ano de noivado, um dia, Amara, sentiu o corpo mal, coma se algo a andar perturbando aló por dentro. Não lhe faz moito caso e aguarda a ver se lhe passa. Mas não lhe passava, porem o que ia ver era como ia medrar seu ventre em nove meses de espera.
Aquele domingo, quando chega Hadriano para o passeio, recebe-o com a cara triste e preocupada.
-Vai passeiar ti. Eu hoje não tenho gana de passeiar.
-Que passa, Amarinha, não tas bem? Não seria minha mãe outra vez.
-Não Adrião, é que…
-Que de que?
-Pois que estou em cinta, ho. E agora ja sei que vai pasar.
-E que é o que vai passar? Pois que temos que ver o de amanhar o do casal antes de que o meninho nascer. Anda, mina rula,, vem aquí, e não tenhas pena por esso. É que não queres casar comigo? Sou feio demais para ti? Não me queres?
-Não digas essas cousas nem de chiste, faz favor. Mas ti bem sabes que ainda não cumpriches os vintetrês e não podes casar sem a assinatura dos teus pais…Acreditas em que tua mãe vai assinar? Vala-me deus, que desgraçada nasci por ser pobre. Que vai ser agora de mim? Outra volta ao inferno da Cabana, coma a minha mãe, toda a sua vida arrastrada coma umha burra de cárrega…Se eu fazer caso do que ela me diz… Que pouco dura a ledícia na casa do pobre…!
-Amara, não fales assim, mulher, que semelha que o filho é teu nada mais. Mas eu também tenho a minha parte, e, de calquera jeito, há-se amanhar. Ti deixa-me a mim e fica tranquila. Ja verás.
Como ia amanhar Adrião o assunto, era cousa que nem ele mesmo sabia. Desde logo, sua mãe, não ia assinar, ainda que o seu sangue ficar sem amparo. Boa era ela, que acreditava na legitimidade do sangue em razão da oportunidade.
Assim que, em aqueles dias, andava muito sério, calado e cavilosso. Seus companheiros da fábrica reparam , e também os da banda, e mesmo seu irmão Abelardo, que tocava com ele…
_Que é o que passa, Adrião?
_Nada. Cousas minhas.
Também o pai, repara em que seu filho anda cavilosso demais, e sente dor, porque Adrião é um homem cabal, um filho muito bom e umha pessoa de peso.
_Que é o que tés, meu filho. Não andas muito contento, não é?
-Meu pai. A minha moça vai ter um filho e eu não posso casar, porque ainda sou novo demais. Minha mãe não pode saber, porque, de o saber, não permitir o casal. Ando feito um novelo, e ja não sei que fazer. Eu quero casar antes que se saiba. Não quero que Amara tenha que passar pola vergonha diante de toda a vila.
-Tes muita razão meu filho. O filho é tanto teu coma dela, e debes de ser um pai desde o primeiro momento. Não fales nada desto com ninguém, que eu vou amanhar esto.
-Como vai fazer, meu pai?
-Ti deixa-me a mim,que tua mãe não é mala mulher, mas é muito mandona, coma o teu avô, o guarda civil. Ti deixa que eu amanhe todo e depois ja não poderá desfazer o feito, ainda que adoeça…
A Adrião não se lhe ocorre como pode fazer o pai para os ajudar, mas a sua promessa deixa-o mais tranquilo e tira-lhe um péso das costas. Aquele dia vai mais contento ao trabalho e, ao sair, passa pola casa dos Leis.
-Boa tarde, Adrião,que é o que querias?
-Posso falar com Amara um instante, Adelina?
-Pois não che sei. Aguarda, vou na procura de dona Amélia.
-Amara está deitando aos meninhos agora. Não pode vir falar contigo. Ademais, em esta casa não se permite receber aos noivos. Ja a verás o domingo no passeio, homem.
-Sim. Bom. Adeus e desculpe. Não lhe diga nada de que vim, faça favor.
-Tranquilo, homem, que eu bem sei como sodes os namorados. Mas que não se volva repetir.
-Fique tranquila, senhora,que não se repetirá.
Não se repetirá porque ja logo ela atenderá ao nosso meninho, na nossa casa, comigo. O que tenha meninhos, que os ature. Que dos nossos, ja nos ocuparemos ela e mais eu. Meu amor…Se não for por minha família, botaria abaixo a porta da casa dos Leis e sairia contigo no braço para te levar no colo por todas as ruas de Cancelas. Para que todos ver o que me importam as suas opiniões, se as comparo com o amor que sinto por ti e polo meninho que levas no ventre, o primeiro fruto do meu sangue. Nosso amor é tão forte, tão claro, tão limpo coma um rio que vai medrando a cada paso, até morrer no mar. Só o mar da morte pode rematar com ele.
Assim ia matinando Adrião caminhando cara a casa, pola Alameda, e pola rua da Revolta.
Algum dia o mundo ha de mudar. Algum dia os trabalhadores hão ter mais importáncia que os ricos, porque o trabalho é quem move o mundo. Algum dia seremos donos dos nossos destinos e nossos filhos não teram que servir a ninguém.
Assim ia cavilando Adrião, e assim entrou pola porta da casa. Triste, pola humilhação sofrida, mas esperançado em que um dia as humilhações rematariam para sempre. Eram tempos de sonhos e revoluções…
-Adrião, filho, bem um instante, antes de que tu mãe volva do rio. Fui embora com tua irmã Tareixa e ja logo hão de volver. Vem, que quero falar contigo.
Falei com dom Avelino, o cura de Corbelhe. Ja sabes que ele é da nossa família. Curmão de tua mãe. Ele diz que, se ides por alí um sábado pola tarde, casa-vos com ou sem permissão. E depois tua mãe que berre. Que ja lhe passará. Vai-te ao julgado polos papeis e Amara que pida os seus em Vimbio Verde e, quando os tenhás, ja eu o avisarei.
-Meu pai, nunca me esquecerei desto.
-E logo não som teu pai? De que che ia valer ter um pai se não te ajuda quando precissas?
Pai e filho abraçam-se e, pola cara de Adrião, esvaram, de vagar, bagoas de gratitude e carinho. Pensou no seu proprio filho que vinha em caminho e sentiu algo alá, no fundo, coma umha vaga de sangue que o abafava e não deixava alentar.
O sangue é espesso e quente, coma um rio de metal fundido que discorre no nosso interior, mas que poucas vezes somos quem de o sentir.

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IV

“ Arriba, los pobres del mundo”

Amara aviou o traje da voda: Um vestido da cor do pão da rosa, co vão baixo, e umha garavata, última moda dos anos vinte, que lhe cosera a melhor costureira de Cancelas. Mercou uns sapatos de pulseira e umhas médias de seda brancas. Peiteou o cabelo num monho detrás e por diante, ondeado e partido com a raia ao lado.
Adrião vestiu traje castanho, com chaleque, gravata e sapatos de pele costurada e com amalhós.
O sábado, às seis da tarde, estavam na casa do cura de Corbelhe com os papeis e , quando sairam ,foram fazer umha foto à casa do Milino.
É desde ela que me estão agora a mirar e a me peçar para que conte sua história. Amara sorrí, co seu braço apoiado na silha do seu homem, e Adrião ta muito sério,como ele era,mas os dous me diz, ao ouvido, estas palavras. Porque quer que a sua história seja contada, para não morrer no mar do esquecemento para sempre, agora que o mundo vai tão rápido. Contam como ja me contaram antes Carmelo, Elena, e como ainda me hão contar todos os que ficam cá, na parede da sala, pendurados nos seus retratos enmarcados em madeira e cubertos de vidro.
Este é um momento feliz, o da voda de Adrião e Amara. Há outros que tão a ponto de chegar, que dam arrepios, polo que amosam desde as suas imagens em branco e negro. Sinto a vaga do sangue espesso que sobe até a gorja. Mas, cada cousa ao seu tempo, que hoje andamos de casamento. Aleda-te, coração, que o teu sangue hoje bule de vida e de sonhos.
Quando Amara deixa a casa dos Leis para ir viver com Adrião à casinha de aluguer que tinham buscada, a dona Joana subiu-lhe o fel à cabeça e toleou. Fui a onda o seu cumão , o cura, e diz que o ia denunciar.
-Pois denuncia, mulher. A mim caer-a-me um responso do bispo, e tal vez algo mais. Mas o casal ja não podes desfazer. As cousas de Deus não és ti quem de as volver atrás. Agora aguarda polo teu neto e ajuda-lhe no que podas, que sou duas criaturas que estão a fundar seu mundo…
E assim fundavam aquele seu mundo. Um mundo que se estava a fundar também ao seu redor. Um mundo onde ferviam as mudanças, as ideias, os sonhos de liverdade e justiça.
Dous meses depois da voda, quando a Amara empeçava a se lhe abultar o ventre, em Abril, quando a vila se enchia de andorinhas,e as mozinhas começavam a sair ao passeio polas tardes, o mundo mudou. E a mudança faz que tudo comece a ferver em Cancelas, coma no resto das vilas e povos, mesmo aldeias de todo o pais.
!!!REPÙBLICA!!!
Que preciosa era a casa de Hadrião e Amara! Ela tinha umha intuição para as colores, a disposição das cousas, e um amor polas cousas boas, que faz que, aos tres meses de casarem, a sua casa seja um lugar encantador. Fazia render a paga do homen e ainda aforrava para umha necessidade. Tinha o chão lustrado e a roupa limpa coma as chirumas.
Assim de fermosa era a recem estreada república. Os partidos ian consolidando-se, fundavan-se partidos novos, e mesmo em Corbelhe, havia um senhor muito apreçado que se apresentava para ser parlamentar.
A “casa del Pueblo” funcionava a todo vapor e as actividades culturais, políticas e sociais, agromavam coma as flores do bieiteiro do São João, em todas as paredes…
Bom. Não em todas. Pois havia de quem andava rosmando e queixando-se de que a república ia acabar co mundo e dar-lhe volta com o cú para arriba, e moitos não gostavam de que volteassem as suas vidas de privilégios e enchenta, ainda que for a costa do lombo dos demais.
Mas, em aqueles primeiros momentos, esso não tinha importáncia. O sindicalismo e a política sonhavam com voltear o mundo, e esso fazia que a gente comum viver mais alegre, mais confiada e mais livre.
No mes de Novembro nasceu Abelardo, o filho de Adrião e Amara, a avoa Joana veu-o ver e a vida acabou de se apousar. O pai travalhava na fábrica, tocava na banda, ia ao liceu de noite, soldava os instrumentos que rompiam, trabalhava na redacção da revista do sindicato, dava discursos nas campanhas eleitorais, intervinha nas mesas eleitorais para garantiçar a democrácia do processo…
Amara ia com o meninho, os sábados e os domingos, para o local sindical, levava o jantar e comiam os tres juntos. Empanada, um termo com café com leite, queijo com dóce de marmelo…Tardes de luz, peneirada no ar, coma a farinha do pão.
Aos quatorze meses, no mes de Janeiro, nasceu Pedrinho, o segundo filho. Depois ja era mais difícil ir para o local com os dous meninhos, assim que Amara, ia levar o jantar e volvia para estar com os filhos.
A vida política de Cancelas, coma a do resto do pais, ia-se polariçando cada vez mais. Havia os das dereitas, e os das esquerdas, e não sempre conviviam em harmonia. Na revista do sindicato saiam artículos que não gostavam a tudos, e no povo, iam-se decantando cada vez mais as posturas de cada quem, e não sempre com boas maneiras.
A dereita ia colhendo cada vez mais pulo, e envalentoava-se. Na fábrica, os operários sindicalistas convocam folga para reclamar mais avanços, o deputado de Corbelhe vem a Cancelas dar um mitim. Também parlamentares importantes das esquerdas. Hadrião presenta-os desde um caixão. O seu discurso enfervoriça a uns e alporiça a outros, que vão acumulando genreira e fel fronte a aqueles filhos da puta que queriam esfarelar o mundo e dar-lhe a volta. Não podem consentir que esso passe. As cousas ja foram lonje demais.
Chegou o dia grande das eleições mais complicadas da República. Os esquerdistas, unem-se na Frente Popular para tentar parar o avanço das dereitas, os interventores percorrem todas as mesas da redonda para evitar trampas, a gente vem votar andando polos caminhos, polas estradas, polas corredoiras e os carreiros todos do pais, coma umha santa companha popular e livre. Os curas berram na missa na contra dos que querem crucificar a Cristo outra vez…
Ao fim, chega a noite e o reconto dos votos. Com o coração num punho, vam passando os papeis e recontando. O pais, a vila, tremam do alento, o tempo para na espera dos resultados.
Amanhã seguinte, celebram festa no local do sindicato, nas casas, na rua…A Frente Popular ganhou e mais umha vez e a tranquilidade, aparentemente, volve a Cancelas.

V

A roda do tempo vira
Mentras que todo esto acontecia, a roda do tempo seguia virando. Em Novembro do ano trinta e cinco, Abelardo faz cinco anos. Pedro fixo quatro, em janeiro do trinta e seis. Ja eram dous hominhos. O mais velho, era tranquilo e sério. O pequeno, tinha o cabelo riçado, fazendo tirabuções, e era enredante e risonho coma um axouxere.
Um domingo do mes de xulho, Adrião saiu para o local do sindicato.
_Abelardinho, queres vir comigo?
-Vai com o teu pai, meu rei,que eu tenho cousas que fazer e quedo aquí com Pedrinho.
No local estavam reunidos os companheiros da fábrica, para falarem das consequéncias da última folga, a actitude do gerente, um italiano que se nega a razoar com os travalhadores, e o caminho que debe de tomar seu protesto. Mentras eles discutiam, um camião cheio de falangistas de camisola açul e correagens com pistola, baixava da Corunha.
Em Corbelhe, a gente andava a passeiar pola beira do mar , ou sentada nas pedras do malecom, quando enfrente, em Cancelas, comezaram os tiros.
Primeiro, foi o ruido. Os estalos das balas, que cruçabam a ria coma negras pombas de lume, batendo suas aças de cinsa na luz da tarde de julho. Depois, vem sair correndo aos homens da “Casa del Pueblo”, fugir polas pedras arriba, perseguidos polos falangistas e as suas balas, numha cena irreal, sem sentido, coma num teatro de loucos. Pouco a pouco, vam tomando conciéncia do que acontece e a notícia percorre as ruas, as tabernas, as praças, as casas…Todo Corbelhe fica no malecom olhando, apampado, para a outra beira. Mais tarde re-agem mas agora, só podem olhar…
Dentro, Adrião colhe a Abelardo e, com ele, refugia-se detrás dumha barricada de mesas e silhas emborcadas no chão a toda présa, quando empeçaram os tiros. Pouco a pouco, vão indo cara a porta de atrás, ele protegendo ao filho, e vão escapando, pola rua da Pena, cara a casa. Os companheiros que os vem, botam a correr detrás e chegam à porta de Amara
-Abre, Amara, abre a porta!
-E logo que passou? Por que tendes tanta présa!
-Cala e fecha a porta. Subide para o faiado que agora vou eu.
-E logo não me vas dizer o que passa?
-Chsssss! Cala a boca. E se vem perguntar por nós, di-lhe que não nos viches. Que aquí não há ninguém mais que ti e os rapazes.
Ja não lhe dou tempo a dizer mais, porque as voces e as carreiras achegavan-se. Subiu ao faiado com os companheiros. Amara seguiu lavando a louça no vertedeiro.
-Me parece que vinieron por aquí! Tienen que estar en una de estas casas!
-Pregunta en esta, a ver!
-Senora, vio usted por aquí a unos hombres corriendo?
-Eu não vi nada. Levo um pedaço na janela do vertedeiro, lavando a louça, e não vi homem nemhum.
-Pues tienen que estar aquí. Ella miente.
-Mire,senhor. Aquí estou eu soa cos meus filhos pequenos. Deberia de ter você mais consideração.
-Tiene razón, hombre, déjala. No ves que tiene dos ninos y está sola? No te preocupes que, si no caen hoy, caerán manana. Caer, van a caer. Eso seguro.
– Pouco a pouco, vão saindo e baixando as escaleiras.
-Se não é por ti, Amara, não chegamos a manhã.
-Desgraçados, não sabedes que tenho dous filhos que criar? Que ia ser de mim se vos atopam na minha casa? Adrião, por que nos comprometes assim?
-E logo, mulher, querias que os deixasse na rua? Para que os matasem a tiros como fixerom com o pobre do Figueiras? Tava de costas à janela, e o primeiro tiro ja foi para ele. Alí quedou, morto coma um animal. Filhos da puta, cães.
– Para o outro dia, estava Amara fregando as cuncas do almoço, quando, desde a janela, viu vir umha parelha de guardia civiles que traziam a um homem. Quando se foram achegando, o coração dou-lhe umha volta no peito. Era Jose do Castanho e, polo que se ve, ja lhe deram umha malheira, porque vinha coxeando e arrastrando os pés.
Era a hora de sairem os rapazes da escola e, à altura das Passareiras, o filho de Jose, que ia jantar, cruçou-se com o pai.
-Papá!
-Toma, meu filho, garda-o ti que eu ja não vou precissar mais.
Tirou o relógio do pulso e dou-lho ao filho.
-Que hace! Camine!
-Com a culata do fuzil, partiran-lhe a clavícula e baixaram-lhe o ombreiro.
Amara ficou estarrecida.Nunca, nos piores anos da sua vida, vira fazer tal cousa um homem a outro. Pensava em Adrião e em se algum dia o viriam colher a ele também. O coração encolhiu-se-lhe até ficar pequeno coma um botão, duro coma umha pedra. Ainda assim, batia. E havia de bater para ver tudo o que ainda quedava por ver.

VII

A cadeia

Amara passa a noite sem poder dormir e, ao abrir o dia e levantar o toque de queda, deixa aos meninhos na casa e corre à casa dos sogros.
Quando chega, ja toda a família estava levantada, sentados na sã, bebendo café.
-Que fui, Amarinha, forom também por Adrião?
-Vinherom a esso da meianoite. E logo, levarom a alguêm mais?
– Levarom, mulher-diz o sogro- Forom casa por casa para buscar a todos os operários da fábrica que estão no sindicato. Seica fui Gurroni, o gerente, o que os mandou prender. Dou-lhe as queixas ao governo civil polo assunto da folga. Tinha-lha guardada desde aquela e não esperou mais.
-E agora, que lhe vão fazer? Não podem prende-los por fazer umha folga. Estavam no seu dereito.
-Minha filha, polo que parez, os dereitos não são o que lhe importa a estes falangistas do demo. A Reimondes , que lhe falou dos seus dereitos, derom-lhe umha lavaçada, diante dos filhos e da mulher, e saltarom-lhe dous dentes. Alã o levarom, coa face cheia de sangue, cara o cárcere de Corbelhe.
-E logo é alí onde os levaram? E quando os poderemos ir ver?
-Há que esperar. A ver se se vão sabendo novas.
Em total seica levarom a nove. Fóra de Reimondes e os outros ainda não sei quem são. Mas ha de se saber, que essas cousas correm, e esta noite houve moito mobemento pola vila.
-Eu tenho que ir à casa, que deixei aos meninhos sós. Se sabedes algo, mandá-me recado.
Fui caminhando, de vagar, cara a casa. Na Casa del Pueblo ainda se viam os sinais das balas do domingo. Pouca gente havia pola rua mas, os que se cruçavam com ela, baixavam a cabeça ou miravam para outro lado.
Quando chegou à casa, Abelardo ainda dormia , mas Pedrinho ja andava polo sobrado, descalço, enredando com o cavalinho de madeira que lhe fiz o pai com a navalha e um taco de castanho.
-Tenho fame. Quero as sopas.
-Sim, meu rei, vem que che dou o almoço.
O pão do outro dia, picado em pedaços pequeninhos, a cunca cheia de leite quente com sucre, bem dóce. A tona do leite, que a mãe apanhava por acima, e logo estendia numha rebanda de pão e cobria com sucre…Todas aquelas cousas que eram de cada dia, e que tão bem sabiam.
Aquelas cousas que, com o passo do tempo, seriam só umha lembrança lonjana dos dias felizes em que na casa havia comida, cousas ricas,roupa e sapatos para calçar.
Ao pouco, chegou sua cunhada, a mais novinha das irmãs de Adrião. Tinha dezasete anos.
-Di-me mamãe que quede eu com os meninhos , e que vaias perguntar por Adrião .
_Deus cho pague, Carminha. Ja sabes onde ta o pão, o leite e o sucre. Até logo.
-E ainda será melhor que vista aos rapaces e os leve para a nossa casa, assim ti podes te mover melhor. Queres?
-Pois claro que quero, mulher. Não ves que ando num sem-viver?
Botou porta afóra e petou na casa de Marcelo, um dos companheiros do sindicato.
-Quem é?
-Sou eu, Amara.
-Entra Amara.
-Eu só queria saber se vinheram buscar a Marcelo, porque a Adrião levaram-o esta nuite.
-Vem por ele, mulher, vem. E não me da boa espinhada. Seica a Adrião foram-o buscar dos primeiros por dom Calixto, o cura, que o acusou de se meter com ele e com a igreja na folha do Sindicato
_ Mã centelha o coma! Desgraçado! Depois de tanto lhe irem tocar e cantar na novena da Junqueira! E logo por falar mal da igreja e mais desses larpeiros dos curas, ja prendem a um homen honrado com dous filhos que manter?
-Amara, a cousa esta-che muito mal. Gurroni dou as queixas ao Governo Civil e não se sabe o que vam fazer com eles.
-E logo que vam fazer?Teram que os ceibar. Não os vam matar por falar mal dos curas e fazer umha folga, digo eu.
– Mira. Eu vou ir agora ao cuartel, perguntar por meu irmão. Antes podemos passar por casa dos companheiros, a ver a quantos levaram.
Perguntando de casa em casa, veu dar o que Amara ja supôr. Levaram aos nove companheiros do sindicato. Foram polas casas colhendo-os, um por um. As famílias ficavam desnorteadas e intranquilas, e pola vila havia ruxe-ruxes e rexoubes e também medo, na gente das esquerdas. Os da dereita andavam a fazer festa na praça, diante do concelho, escachando de riso com os insultos à república, da que até tres dias formavam parte também, e ameaças que iam subindo de tom e envalentoando-se a cada dia que passava sem se resolver as cousas em Madrid.
Amara e o resto das mulheres, foram canda Teodoro Leirado, que também tinha ao seu irmão retido, cara o cuartel.
Caminhavam pola rua, e a gente olhava-os de esguelho, mas não se atrevia a dizer palavra. Quando passaram diante da casa das Candorcas, a mãe, que estava no vertedeiro fregando a louça, berrou:
-A todos os porcos lhe chega seu São Martinho, caralho! Ide, ide, que também iades correndo quando vinha esse mangoleteiro de Corbelhe dar os discursos!
Sem sequera mirar, seguiram para adiante, até chegar ao cuartel. Na porta, havia dous guardas, sentados numha mesa, lendo um jornal.
-Que queredes?
-Queremos falar com o brigada.
– Aguardade aquí, que lhe vou perguntar.
O brigada era um homem cinquentão, velho na vila, mais amigo de resolver as cousas de jeito amigável que de liortas.
-Que di o senhor brigada que podem pasar, mas só duas pessoas, que todos são muitos.
Ao fim, o brigada diz que ele não sabe nada. Que as ordes vinheram do Governo Civil e que eles se limitaram a as cumprir. Eles ficavam no cárcere de Corbelhe, que era a cabeça do Partido Judicial para serem interrogados e, segundo o que se visse, iam ser postos em liverdade ou não. Ainda não se podia falar com eles, porque os tem isolados, e, se houver mais notícias, ele não tinha impedimento nemhúm para lhe- las dar. Mas, de momento, não havia nada novo.
Foram embora com os ánimos decaidos. Quedam em volver à noitinha para perguntar outra vez.
E assim um dia, dous, tres…Até umha semana.
Ao cabo da semana, quando vão ao cuartel, como cada dia, o brigada diz:
-Tenho boas novas. Eles ficam retidos no cárcere, de momento, mas vocês podem ir para os ver, ja desde manhã. Esso sim. Só pode ir umha pessoa por preso.
-Vês, ja vos dizia eu que não lhe iam fazer nada, que eles não fixer nada mau.
Amara vai para a casa dos sogros, cantando baixinho. Amanhã poderia ir ver ao Adrião e, se deus quixer, logo haveria de estar de volta na casa e a vida seguiria seu curso.
Amanhã seguinte, levanta-se cedo e vai a cas de Marcelo, chamar â irmã.
-Passa, Amara, que ja logo acabo de me peitear e marchamos.
Quedaram com os outro às nove meia no peirão, para colher a gamela que os ia cruçar por mar. Ali estava o senhor Ruperto, o barqueiro, e a expedição tomou o rumo do cárcere de Corbelhe, umha construção de pedra levantada ao pé do mar.
Quando chegam, faz-os passar a umha sã de pedra: As paredes, o tecto, o chão. Umha sã húmida e fria, mesmo em aqueles dias últimos do mes de julho.
Passado um quarto de hora, vem um guarda:
-Ja podem passar.
Todos a correr que quase tropeçam uns com os outros, com ansia, com angustia, com présa por chegar a onda eles…
Estavam todos juntos, de pé, numha outra sã de pedra, mais grande que a primeira.
-Quanto frio faz aquí! Diz Amara quando olha ao Adrião, tão sério e tão fraco,sem barbear, mas cum sorriso e umha felicidade nos olhos que a faz estremecer.
-Meu filhinho! -Abraça-o tão forte como pode e ele, repousa sua cabeça no seu peito e deixa-se estar assim, tranquilo por primeira vez em muitos dias.
-Quanto pensei em ti, minha rulinha…! E nos meninhos. Como andam? Até pensei que não volveria a te ver nunca mais.
-Não digas esso, Adrião, prego-cho. Não volvas dizer…
Ele bicou-lhe o cabelo. E os beiços.
Cada dia, às nove da manhã, a gamela saia com sua cárrega. Amara levava a cesta do jantar para Adrião, cada dia com boas cousas: òvos, um termo de café com leite, empanada de xoubas…Não queria que colhesse algumha doença là, em aquele lugar tão escuro e húmido.
Depois de duas semanas, chegam ao cárcere e percebem algo diferente nos nove companheiros.
Adrião leva a Amara a um lado :
-Ja andam amanhando todo para que podamos fugir. Temos um barco preparado para ir até Portugal e, de alá, a América.
-Não fagades esso, Adrião, que se fugides, ja estades a reconhecer que sodes culpáveis: “Atrás quem corre, correr”. Não marchedes, ho. Esperade um pouco, ja veredes como todo se amanha. Logo há de rematar esto e a República ha de volver a pór as cousas em seu lugar.
_As cousas andam mal. Não em Madrid, nem em Barcelona, mas aquí mandam estes e não sei se será boa ideia quedar…
As outras mulheres, eram do mesmo parecer, pregaram-lhe aos seus homens não ir embora. Acreditavam em que as cousas aginha se iam amanhar. A América ficava muito longe, e quem sabe se se volveriam ver. Eles não fisseram nada mau; de facto, se não for pola lavaçada de Reimondes, não lhe tocaram um pélo da roupa a nemhúm.
Ao fim, sua opinião triunfou e eles esqueceram a fugida. Outra semana passou agardando pola ansiada liverdade.

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VIII

A sangria
Ao cabo dumha semana, quando chegam para os visitar, eles tem novas que contar-lhes:
– Amanhã transladam-nos à Corunha. Seica vão interpõr contra nós cargos graves e vai-nos julgar um conselho de guerra.
-E esso que é, Adrião?
-Pois que nos consideram muito perigossos e ja não nos vão soltar, como pensávamos. Vai-nos julgar na Corunha um tribunal militar.
-O que? Mas, se vós não sodes militares, só operários da fábrica…
-Sim, mas parece que a guerra se extende e a República não é capaz de restabelecer a ordem. Assim que anda todo revolto; e aquí mandam os militares do bando franquista e os falangistas, assim que, a ver se temos sorte e volvem as cousas ao rego antes de que se resolva o caso, senão poden-nos cair anos de cadeia…
-Não digades esso…Mina mãe, Que será de mim e dos nossos filhinhos?
-Ainda che quedam quartos, Amara?
-Quedam. Ti não penses agora no dinheiro. Pensa em saires aginha de aquí. Que nos fas muita falta.
Quando Amara passou pola casa dos sogros, soubo que seu cunhado Ramon, que estava fazendo o serviço militar em Astúrias, desaparecera num bombardeio republicão ao cuartel onde ele ficava.
A senhora Joana chorava coma umha Madalena e as duas filhas mais o filho pequeno, consolavam em ela.
-Ja verá mamãe, como ainda vai aparecer. Ainda não diz que morreu.
-Calade, que bem sei eu que não vou ver mais ao meu filho…Malditas as guerras e quem as inventou…E ti, Amara, que novas trazes?
-Minha sogra, seica os querem levar para a Corunha e fazer-lhe um conselho de guerra.
-Minha virgem da Junqueira! Um conselho de guerra! Querem acabar com os meus filhos. E não se acabará dumha vez esta loucura?
A vida dera a volta em Cancelas. Todo ficava do revês. O mundo estava a mudar e na pequena vila ja se fazia patente essa mudança.
O luns, transladam a Adrião e aos companheiros à Corunha, o irmão Abelardo, com seus companheiros, bota-se ao monte,antes de que venham por eles também, e a casa ia ficar sem seus homens. Só o pai e o pequeno João ficam com a mãe e as irmãs. Pouco a pouco tem que ir vendendo os móveis, a roupa das camas, a louça, os jogos de café…Com cada cousa vai-se umha parte da vida da família. Cada cousa é umha pinga do sangue espesso dos Barroso que se verte numha sangria sem fim…

IX
Tudo perdido
Com a marcha dos nove companheiros à cadeia da Corunha, a vida de Amara mudou. Agora ja não era cruçar na lancha do senhor Ruperto. Agora ela, mais as mulheres e irmãos dos outros, iam à Corunha um dia sim e outro também, para ver aos homens, para os consolar e para agir na procura de algumha saida ao fim que se albiscava ao longe, mas não se queria aceitar.
Os ánimos de eles, erão bons, de momento. Ainda confiavão em que tudo poderia ter solução. mas o tempo ia passando e os acontecementos precipitaram-se e as famílias apelavam a tudo o que podiam para os livrar.
Logo lhe anunciam que , definitivamente,vão ser julgados num juiço sumaríssimo, em conselho de guerra. Amara entrevista-se com o avogado que lhe asignaram ao Adrião, mas o homen, desde o primeiro momento, pensa que o juiço é um simple trámite e que a sorte dos nove companheiros ja fica decidida desde o mesmo dia da sua detenção. O único que os poderia salvar, seria a intervenção favorável do cura da parróquia ou de algúm membro influinte da igreja, mas nem um só moveu um dedo por eles e o dia do juiço chegou.
A cada um o encausam por diversos motivos, numha paródia de juiço, ainda que o cargo comum a todos eles é o de grevistas, alborotadores e sujeitos perigosos para a sociedade.
Na paródia, tem seu papel gente da vila de ideias conservadoras e cobiça por ter favores que testificam para implicar aos acusados em actos de “terrorismo”.
No caso de Adrião, umha das operadoras do telefone asegura que lhe queimou um pé cum dos petardos à porta da oficina, e, em prémio à sua testemunha, concedem-lhe umha tabacaria para vender selos, tabaco e certificados. Um dia, anos mais tarde, Amara, encarou com ela na Alameda compostelã e depois de lhe sinalar o pé arrastrou-a polo cabelo. A outra não diz nada. Mas seguiu a disfrutar da tabacaria por muitos anos.
Assim fui como a realidade se ia abrindo caminho e as portas da esperança, umha a umha, se iam fechando para eles.
Um dia, quando Amara chegou a visitar a Adrião, este ficava sentado na cela, com a cabeça abaixada, calado. Ela pergunta e ele responde:
-Será o dia nove de dezembro às sete da manhã.
Faltavam duas semanas.