A janela

Tanto tempo sem sair faz que as minhas referências da realidade sejam duas janelas: Esta virtual, por onde me ponho a mirar aquelas cousas que me prestam, e a janela do meu quartinho, por onde vejo um quadro que é, hoje, o único mundo que tenho.
Até penso en lhe dizer a Suso que me merque umha luneta ou uns binóculos, coma aqueles de James Stewart no filme de Hitchcock, mas não para ver a nemhúm assassino humano, só para ver a parelha de garças que voam cada tarde sobre as árvores da beira do rio, ou o minhato que pousa em riba do poste de cemento da leira de minha irmã, cada tarde também.
Sempre tento olhar de mais perto e tirar-lhe umha foto, mas, quando me assomo à porta, bota a voar e escapule-se para outro poste mais distante. Quaisquer movemento que eu faça, por pequeno que for, ele sempre o detecta. Debem ser seus olhos, que não precisam de trebelhos para verem o que tem de ver.
Quando chega a nuite, vejo ao longe o letreiro de color fúchsia que pestaneja lá , em riba da Parrilhada Santos, coma se for a luz dum faro no meio dum mar escuro.
E mais nada. Esse é todo o universo material que tenho desde hà meses. No horizonte, sempre os montes. Vimianço é um val circular, redondo e fechado como um embigo.

chúzame -