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A página da Rifenha de Vimianço

Tardes de invernia

Filed under: Cousas minhas — Rifenha at 7:36 pm on mércores, xaneiro 24, 2007

 
São as seis menos quarto aquí, em Al Hoceima. O muecim chama para a pregária de Al Magreb, a penúltima do dia.

Polo vidro da janela, vejo o céu da cor do chumbo, e as açoteias cheias de antenas parabólicas  todas viradas cara o mesmo lado, com as costas cara mim.

Sinto ruido de carros, embaixo, na rua, mas hoje não se escuitão meninhos com o balão contra os portais dos garagens, nem jogos, nem nada.

A gente toda fica nas casas, mesmo sem sairem para dar o passeio diário da tardinha, pola praça e as ruas de arredor.

Eu fico aquí, fronte ao ecrã da minha janela mágica. Vém-me à memória as tardes de inverno, em Vimianço, quando era ainda umha meninha e sentava com mia tia Estrelinha para debulhar os chícharos secos, ou escunchar o milho que quedara da milheira, ou espenicar os ouriços e guardar as castanhas para asar de nuite, na cozinha económica.

Minha tia Estrelinha nasceu com sete meses, e pouco depois, dou-lhe a meningite, e ficou toda a vida coma umha meninha. Sabia contar os contos melhor que alma do mundo, e tão bem os repinicava que nunca me cansava de a ouvir.

Sabia os contos clásicos de Grimm e Perrault: Carapuchinha Vermelha, a Cinsenta, Branca de Neve...Mas, o que mais me encantava era o de Polegarinho.

A través das suas palávras, eu via  a Polegarinho e aos seus irmãos deixar as mingalhinhas de pão polo carreiro do monte, ficar sozinhos quando chegava a nuite e subir a umha pedra que eu mesma vira algumha vez, na Pedra do Raposo, quando ia com minha mãe e mais meu avó com o carro das vacas ao balume. Umha pedra de grão, grande,redonda coma um monte, cheia de liques amarelos, desde onde os meninhos alviscavão umha luzinha alá ao longe...

Ficava fascinada cada tarde, quando, achegadas à janela do corredor dos animais, entre a herba molhada, a remolacha, e o recendo das vacas, eu acompanhava a Polegarinho na escuridade montesia, cara aquela luz longinqua, onde esperavão atopar amparo , porque era o único lugar a onde podião ir. Nem umha luz mais na redonda, nem sequera as estrelinhas agochadas nas silveiras, das velhinhas de fazer o caldo...

Hoje há tantas luzes em Vimianço, pola nuite, que, se te achegas vindo de Fisterra, o val semelha um Belem de Natal. Não volví ver umha velhinha de fazer o caldo, hà mais de vinte anos. A Pedra do Raposo vai ficar perto do Parque empresarial, as vacas, o milho, e a erva, desaparecerom da casa. Agora alí comemos quando nos juntamos minha irmã e mais eu, com os nossos seis filhos-entre as duas-.

Não acredito que o ogro siga tendo a casa por aí, com tantas eólicas e tanta trangalhada de metálicos, máquinas de lavar e colchões velhos.

Polegarinho debe de ficar aló, com minha tia Estrelinha, debulhando chícharos e abrindo ouriços em algûm lugar da minha memória.

Chuzame! chúzame -

4 Comments »

Comment by avelainha

2007-01-25 @ 3.41 pm

Preciossas lembranzas, rifenha. Lendo este post, perguntei-me que classe de lembranzas das tardes de invernía pode ter um neno hoje…
Eu nom podo acordar das velhas fazendo o caldo, mas lembro de esfolhar no milho, fazer a obrigatória visita á horta, ou pasar as tardes perto da cozinha quente com a minha tia-abuela, que de seguro se parecia à tua Estrelinha. Dos seus contos, do seu bom humor e das suas cantigas. E, ainda que entom nom me decatava, esses momentos tiverom umha impotáncia primordial na minha vida. Influindo na minha identidade, na minha ligazón com a terra e a natureza, com as costumes e a cultura do nosso povo.
A nostalgia daqueles tempos fai rir a moitos, que insistem na dureza daquela vida, na ausência de tempo para o descanso,nos trabalhos; mas, para os que nos gusta falar de vagarinho, pensar de vagarinho, caminhar de vagarinho, as cousas mudam e perecem apressa demais.

Comment by Rifenha

2007-01-25 @ 5.05 pm

As velhinhas de fazer o caldo, em Vimianço, erão as lucernas , esses insectos pequeninhos que brilhavão entre as silveiras, coma estrelinhas, nas nuites da minha infáncia.
A minha pátria segue a ser a minha infáncia e a sua ligação com a terra. Esse fui o momento de descobrir as cousas por primeira vez, de lhe dar nome, de as integrar em mim.
Em quarenta anos, o mundo mudou mais que nos qinhentos anteriores e essa velocidade asusta aos que vimos de tão longe…
Saudações, avelainha.

Comment by avelainha

2007-01-25 @ 11.00 pm

ahhh! velhinhas de fazer o caldo, nunca escuitara… para mim som luzecús ou vagalumes. Tres nomes fermossos para um insecto fermosso.
Desfruta do teu dia off, e descansa.
Saudinha

Comment by Rifenha

2007-01-25 @ 11.11 pm

Sim. São desses nomes locais, que não tem muito valor gramatical, mas sim afectivo.

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