Tardes de invernia

São as seis menos quarto aquí, em Al Hoceima. O muecim chama para a pregária de Al Magreb, a penúltima do dia.
Polo vidro da janela, vejo o céu da cor do chumbo, e as açoteias cheias de antenas parabólicas todas viradas cara o mesmo lado, com as costas cara mim.
Sinto ruido de carros, embaixo, na rua, mas hoje não se escuitão meninhos com o balão contra os portais dos garagens, nem jogos, nem nada.
A gente toda fica nas casas, mesmo sem sairem para dar o passeio diário da tardinha, pola praça e as ruas de arredor.
Eu fico aquí, fronte ao ecrã da minha janela mágica. Vém-me à memória as tardes de inverno, em Vimianço, quando era ainda umha meninha e sentava com mia tia Estrelinha para debulhar os chícharos secos, ou escunchar o milho que quedara da milheira, ou espenicar os ouriços e guardar as castanhas para asar de nuite, na cozinha económica.
Minha tia Estrelinha nasceu com sete meses, e pouco depois, dou-lhe a meningite, e ficou toda a vida coma umha meninha. Sabia contar os contos melhor que alma do mundo, e tão bem os repinicava que nunca me cansava de a ouvir.
Sabia os contos clásicos de Grimm e Perrault: Carapuchinha Vermelha, a Cinsenta, Branca de Neve...Mas, o que mais me encantava era o de Polegarinho.
A través das suas palávras, eu via a Polegarinho e aos seus irmãos deixar as mingalhinhas de pão polo carreiro do monte, ficar sozinhos quando chegava a nuite e subir a umha pedra que eu mesma vira algumha vez, na Pedra do Raposo, quando ia com minha mãe e mais meu avó com o carro das vacas ao balume. Umha pedra de grão, grande,redonda coma um monte, cheia de liques amarelos, desde onde os meninhos alviscavão umha luzinha alá ao longe...
Ficava fascinada cada tarde, quando, achegadas à janela do corredor dos animais, entre a herba molhada, a remolacha, e o recendo das vacas, eu acompanhava a Polegarinho na escuridade montesia, cara aquela luz longinqua, onde esperavão atopar amparo , porque era o único lugar a onde podião ir. Nem umha luz mais na redonda, nem sequera as estrelinhas agochadas nas silveiras, das velhinhas de fazer o caldo...
Hoje há tantas luzes em Vimianço, pola nuite, que, se te achegas vindo de Fisterra, o val semelha um Belem de Natal. Não volví ver umha velhinha de fazer o caldo, hà mais de vinte anos. A Pedra do Raposo vai ficar perto do Parque empresarial, as vacas, o milho, e a erva, desaparecerom da casa. Agora alí comemos quando nos juntamos minha irmã e mais eu, com os nossos seis filhos-entre as duas-.
Não acredito que o ogro siga tendo a casa por aí, com tantas eólicas e tanta trangalhada de metálicos, máquinas de lavar e colchões velhos.
Polegarinho debe de ficar aló, com minha tia Estrelinha, debulhando chícharos e abrindo ouriços em algûm lugar da minha memória.

chúzame -