Memória histórica

Minha avoa Dolores-a comunista-, viúva desde os vintaseis anos do seu homen, Florentino, mãe de dous meninhos de tres e quatro anos quando enviuvou, morava numha casinha à beira da estrada que une Vimianço com Camarinhas.
Xusto diante da sua casa, pusserom o jugo e as frechas encarnadas de madeira e de grandes dimensões, com o nome do povo, VIMIANZO, como adoitavão fazer nos anos do "glorioso movimiento"
Não sei se fui a posta, ou por açar, mas o certo é que era o primeiro que via cada dia, ao abrir a janela.
Quando ia à sua casa, e ficava-mos soas, contava-me muitas cousas de quando vivia em Cée, com meu avó, de como fui parar a Cée, com treze anos, para ter conta das crianças de umha das famílias ricas da vila. Era filha de solteira sem mais que o dia e a nuite, e as suas mãos para panilhar.
De como meu avó e mais ela se namorarão, tiverão os filhos, de como ele participava activamente na vida sindical da fábrica de Carburos-A Fábrica, para os de Cée-, também na vida política ,estudava polas nuites nas áulas de adultos, tocava o clarinete na banda de música e ainda tirava tempo para sairem com os meninhos, ir ao teatro, aos concertos, e ao cinema que já daquela funcionava em Cée, umha vila cheia de vida cultural e política nos anos da República.
Também me contava outras cousas tristes. Muito tristes e vergonhentas.
Mas, hoje, quero rescatar aquela versão da Internacional que adoitava cantar-me quando ficavamos sozinhas, no seu quarto da tenda, mentras os panilhos repinicavão no cuiro da almofada, e as rendas de rosas, se ião completanto em cada pique.
LA INTERNACIONAL
Arriba, parias de la Tierra. En pie, famélica legión. Atruena la razón en marcha, es el fin de la opresión. Del pasado hay que hacer añicos, legión esclava en pie a vencer, el mundo va a cambiar de base, los nada de hoy todo han de ser. Agrupémonos todos, en la lucha final. El género humano es la internacional.
Ni en dioses, reyes ni tribunos, está el supremo salvador. Nosotros mismos realicemos el esfuerzo redentor. Para hacer que el tirano caiga y el mundo siervo liberar, soplemos la potente fragua que el hombre libre ha de forjar. Agrupémonos todos, en la lucha final. El género humano es la internacional. La ley nos burla y el Estado oprime y sangra al productor. Nos da derechos irrisorios, no hay deberes del señor. Basta ya de tutela odiosa, que la igualdad ley ha de ser, no más deberes sin derechos, ningún derecho sin deber. Agrupémonos todos, en la lucha final. El género humano es la internacional.
È umha versão que nunca volvi a ouvir. Sempre era outra letra a que escutava.
Mas, é de comprender. Estas cousas agora jà não passão. Já somos modernos demais para ser párias. Agora a famélica legião são outros. Nós ja ficamos cheios.

chúzame -