Cabodano

Há setenta anos. Mas hoje, para mim, é um dia especial.
Pola manhã, quando despertei, o sangue avisou-me que fui tal dia coma hoje, pola manhã cedo, quando nove homens novos, sindicalistas e operários da fábrica de carburos de Cée, sairam num camião, desde o cárcere da Corunha, caminho do Campo da Rata.
As mulheres levavão desde a madrugada na porta, aguardando ve-los sair . Às seis da manhã, ainda não chegara o camião que os levaria , e elas ainda se agarravão ao cravo ardendo da esperança:
"-Seique não venhem"...
Ainda podia ser que, nessa nuite, chegara o indulto,sem elas saber.
Ainda que era difícil, pois eles não quixeram aceitar as condições: Reconhecer que ficavão errados e que o Socialismo e a República os levarão por mal caminho, mas agora ião retificar e defender os princípios do "glorioso movimiento".
Pouco antes das sete , com as luzes da manhã de decembro, o camião chegou e, pouco depois, vem sair aos seus homens, na parte de detrás, com seus trajes de domingo, camisola branca e vestidos para o último dia da sua vida, tentando amosar a dignidade com a que vivirão sempre.
Algûm ia derrubado, e chorava com desespero. Os companheiros, tratavão de se animar entre sim, repartindo as forças.
Todos tinhão arredor dos trinta anos. Algûns mulher e filhos. Nove homens novos que ião num camião caminho da boca do fuzil.
As mulheres correm cara o cemitério de Santo Amaro, para os aguardar e, polo caminho, escuitão os disparos do pelotão. Logo os tiros de graça, um a um.
Quando chegão ao camitério, ainda não ficava là o camião que trazia os homens que sairaõ meia hora antes do cárcere de pé dereito.
Ao pouco, chegou com eles amoreados, sem vida, a camisola branca tinguida de vermelho, e os olhos que já não podião mirar , as mãos que não podião tocar, a boca fechada para sempre.
Umha mulher quixo abraçar seu homen, chorando, mas um guarda espetou-lhe a culata do fuzil no peito:
"-Señora, si da usted un paso más o hace algún ruído, se reunirá ahora mismo con su marido"
Os seus dous meninhos de tres e quatro anos, não podião quedar sem pai e sem mãe no mesmo dia.
Por esso se arrimou atrás e tragou as bagulhas até fazer um nó no peito . Tinha vintaseis anos, dous meninhos, um marido morto e os aforros gastados em cinco meses de cadeia e um conselho de guerra.
Aquele mesmo dia, o jornal La Voz de Galicia, sacou umha pequena resenha, com o título de "Sentencia cumplida".
Nas partidas de defunção, as causas da morte, erão"pulmonia".
Nunca puidemos recolher os ósos do meu avô, porque cada cinco anos, o cemitério de Santo Amaro, remove a terra das sepulturas para enterrar a outros no sítio.
Mas nunca se esvaerá do meu sangue. Ninguém poderá dizer nunca que ele morreu definitivamente aquele nove de decembro do 1936.
Toda a minha vida estivo ele comigo. Presente nas actitudes, na conciéncia, na hora de tomar as decissões que nos definem como pessoas.
O seu sangue espesso flue por cada recanto do meu corpo. Até a última célula do meu corpo vai conservar para sempre a "memória histórica", para lhe la transmitir aos que vem detrás de mim.
É a herdança mais valiosa de todas. A que nunca se gasta, nem se acaba, a que me da conciéncia de quem sou, de onde venho, e a onde quero ir.
Avô. Desde aquí, setenta anos depois, quero que saibas que tés o meu respeto , a minha admiração e o meu amor.
Que, ainda que não te permitirão viver para me abraçar, eu sempre te levei, desde que tenho memória, dentro de mim. Que a avoa e o pai se encarregarom de que não ficasses esquecido. Que minha irmã, eu, e os nossos filhos ficamos muito orgulhossos de ti e te adoramos e que nunca, nunca, imos esquecer o que ti fizeste por nós. Dar-nos umh leição de como se vive e de como se morre.
Umha aperta muito forte.
"Norberto Recamán, José Lago, Teófilo Mejuto, Perfecto Trasmonte, Jesús Chouza, Florentino Canosa, Manuel García y Domingo López. Cayeron en el Campo da Rata coruñés el 9 de diciembre."


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