Misantropia
De vez em quando, sem saber por que, dão-me uns ataques repentinos e viscerais de misantropia.
Gostaria de fugir a umha cova do monte, coma um anacoreta, e alí deixar que o tempo esvare, paseninho e maino, coma a água dum regato.
Umha cova destas que há no Rif, antigas minas de extracção de ferro dos espanhois e portugueses, que abrem sua boca escura nas abas das montanhas arrubiadas, de pedra ferrenha...Que bem se debe de ficar lá, sozinha,dentro da terra, sem ouvir a nemhúm ser humano, só o chiar dos passaros e o deslizar-se suave dos lagartos e das salamanquessas...
Adoito tar sozinha. E quando, por umhas e outras cousas tenho que fazer vida "social" fora das horas de travalho, vai-me medrando um desassosego no peito, umha falta de alento, um desacougo, que não sou quem de dominar.
O peor é que a gente gosta da minha companha. E agradece que fique là, com eles, não sei muito bem por que...
Gosto da gente para dançar, ou brincar, ou tomar o sol e merendar na beiramar, ou para escuitar suas cuitas...Mas a gente, por norma, gosta de falar e falar, de cousas sem jeito, que, depois dumha meia hora, ja me aloulam. Adoitam ser conversas tristes, disfraçadas de riso ou formalidade que sempre diz o mesmo, mas de jeito só um bocadinho diferente...
Ao fim, saves tudo o que vão dizer, como vai seguir o tema, em que ponto vai aparecer cada tic, ou cada toc, e vas pôndo-te mais e mais triste, até volver à casa, ao refugio, com essa sensação de ter malgastado a serotonina sem ter produzido endorfinas, antes bem, ter perdido as poucas que guardavas coma um tesouro difícil de conquistar...Depois, dias de tristura e desassossego, até não se save quando.
Hoje tenho umha cea de fim do curso. Não sei ainda o que fazer . Outravolta o pánico tenta se apoderar de mim...
Tenho ainda tres horas por diante. Quem puidera não ter que se "relacionar" com ninguém agás por gosto de o fazer...
E não quero despreçar aos meus companheiros, aos que quero muito bem. De coração.Só quero reivindicar a misantropia, ainda que seja transitória e pontual, coma umha forma de vida, que, cada vez é mais difícil de manter...

chúzame -