Os arcos do Susinho
Hoje chama-me o Susinho. Fica feliz e quere-me contar o parto da sua primeira bóveda de cruceria.
Falamos do dia em que diz que não queria estudar mais, de quando fomos, os dous, a Mestre Mateo, para entrar na escola, e começou a bater nas pedras e a dar-lhe à gúbia,mentras eu ia enchendo os andeis do piso de enciclopédias, monográficos e cds de arte...
De quando mudou a sua admiração por Jim Morrison pola de Michellangelo...Tão cheio de cabelos tão negros e tão crechos e de porros que remataram numha ansiedade de cavalo...
Falamos de tudo esto, e rimos.
Porque hoje fui o dia no que rematou os seus primeiros arcos.
Fui aló polo antigo reino de Valencia,num mosteiro do Císter fundado no século XIII, nos tempos de Jaume II "El Just" . Restauraram umha bóveda de arcos cruçados e ele fui, por primeira vez, o mestre canteiro responsável...
pouco a pouco iam retirando os andâmios olhando para acima, por se havia que escapar...
Mas as pedras ficaram no seu sitio, descarregando o seu peso cara os lados, como cómpre en tudo arco que se preze de o ser...
Depois de tantos anos vendendo coiro polas feiras-graças a esso, ao ir visitar, conheci gente bem encantadora, artista e garimosa- de fazer de camareiro ,de cantar coa sua guitarra polos pubs da Corunha, de fazer duas expossições de quadros e desenhos.
Depois de esculpir a sua primeira obra pública há sete anos, que ainda não cobrou do Concelho de Corcubiom- O busto de José Carrera que fica na entrada do Concelho-
Tal vez se tivesse cobrado não teria sido a única, mas há cousas que a um moço novo o desalentam e umha delas, é não cobrar polo seu travalho...E ainda por acima, ter que pagar o IVE da factura do seu peto...
Também tem umha outra escultura num lugar bem visitado: umha cabeça feita para um pub da Corunha-o Cachivache- que essa Miguel, o dono, sim que lha pagou...Porque Miguel é um bom rapaz de Vimianço, gente coma nós.Não é umha institução pública.
Hoje fico muito contenta. Feliz de não ter investido no forum esse dos selos que saiu furado ,nem no banco, nem na caixa, nem em nemhum outro... As minhas inversões medram e dão froito. Até me espertam para me contar a magia dos arcos que se sostem, no alto,polo bom ofício de canteiro dum rapás que naceu um dia de novembro do 77. Dia de frio em Vimianço. Que pari eu sozinha porque ao doutor que havia no povo não o podiamos chamar pola nuite, porque bebia um bocadinho e não era de fiar mentras não lhe passavam os efeitos...
Meu avó,acompanhava-me a passeiar polo corredor. Ele estava no seu último tramo de vida e gostava de recibir a um meninho para o seu lugar...O meninho leva o seu nome...E tem um dos seus ofícios. Ele fui canteiro e ferreiro depois...Meu avô não fazia arcos de cruceria. Ele e mais seu pai e seu irmão tinham umha quadrilha de canteiros. Construiram algumha das casas que ainda hoje quedam em pé em Vimianço-A ver por quanto tempo...- Meu avó ensinou-me umha rima na lingua dos canteiros:
O endusco vai lhestindo
pró esabo da ureta.
Os argas quedam galrando
que muriam se lhe peta...
Hoje penso como a vida é umha cadeia... Por esso as ideias me vem assim, encadeadas,sem muita orde...Hoje é um dia especial. O" dia dos arcos cruçados".O dia no que se cruçaram o passado e o presente. Serei eu a pedra clave onde se encontram as duas linhas, a do meu avô e a do meu filho? Nunca pensara no assunto, mas é. Imos recolhendo e transmitindo. Sendo sementados e sementando à nossa vez. Assim se tece o tecido da vida. Coa urdime dos anceios, dos sonhos e das acções dos nossos devanceiros, que se materialiçam nas nossas opções fronte à vida. Assim tem que ser para a gente de bem.Saber quem somos e de onde vimos. Para saber a onde queremos ir. E logo, deixar-nos levar polo rio da vida. A onde queira que nos leve, sempre seremos galegos e galegas, criativos, capaces de pensar,de empatiçar, de travalhar e de fazer bóvedas de cruceria para ir desde o passado até o futuro...

chúzame - 